30 abril 2013

A Última Beguina
– Aprender com a História

Entre nós, passou despercebida à comunicação social a notícia da morte da última beguina, Marcella Pattyn, com 92 anos, no dia 14 do passado mês de Abril. Mas jornais de outros países aproveitaram o acontecimento para trazer à actualidade o que foi o movimento das beguinas, iniciado no século XII no centro da Europa (há historiadores que pretendem fazer remontar esta origem ao ano de 663). O Ouvido do Vento quer assinalar alguns traços deste Movimento de cunho profundamente espiritual e emancipatório.

O Movimento das Beguinas é um exemplo surpreendente da capacidade inventiva das mulheres e inscreve-se no longo percurso de emancipação das mulheres e da sua presença na Igreja e na sociedade. Na sua matriz cultural e espiritual, estão presentes muitos dos traços desse longo processo emancipatório e de procura de um lugar genuíno na sociedade e na Igreja, por parte das mulheres.

As beguinas caracterizaram-se pelas suas opções de vida. Romperam a barreira da escolha que, na época, lhe era proposta (ou esposas ou monjas), eram celibatárias, mas também viúvas e, em alguns casos, mulheres casadas que, vivendo nas suas casas de família, participavam da espiritualidade e das missões comuns das comunidades das beguinas. Viviam em habitações próprias, sozinhas ou com algumas companheiras, mas mantendo grande autonomia; procuravam viver do seu trabalho e optavam por um estilo de vida simples e pobre; prestavam serviços caritativos às pessoas da vizinhança que a elas recorriam, nomeadamente cuidados de saúde, de enfermagem ou de educação das crianças. Quase todas praticavam alguma arte, no domínio da pintura ou da música. Algumas distinguiram-se na poesia mística escrita em língua vulgar, contrariando o uso do latim

Recusavam qualquer voto de clausura ou de obediência a uma regra conventual ou monástica. Superaram, igualmente, os vínculos do parentesco e da dependência patriarcal; todavia, mantinham grande prática de solidariedade e entreajuda e, embora, provenientes de diferentes estratos sociais conviviam entre si fraternalmente.
Organizavam e muitas vezes dirigiam o culto em língua vernácula, contrariando o hábito da altura da liturgia em latim.

O Movimento foi particularmente relevante nos últimos séculos da Idade Média, sobretudo na Flandres, mas espalhou-se a outras regiões do centro da Europa.

Constituiu um viveiro de mulheres cultas, sábias e santas, que prezavam a sua autonomia e as suas capacidades femininas.
Apreciadas por muitos dos seus conterrâneos, não evitaram, porém, que o Movimento tivesse merecido a condenação do concílio de Viena em 1311, por suspeita de heresia, sendo que algumas beguinas conheceram mesmo a fogueira, como sucedeu com Marguerita Porète.

Certamente sem o fulgor que alcançaram na alta idade Média, as comunidades das beguines mantiveram-se por largos séculos e ficam na história como testemunho do valor de comunidades de mulheres espirituais leigas, dedicadas a Deus, mas independentes da hierarquia eclesiástica, autónomas na obtenção do seu sustento e na organização da sua vida pessoal, atentas ao próximo e às suas necessidades, informadas e cultas.

2 comentários:

  1. Gostei de ler.Ajudou-me a visualizar esta vida com uma visita que em tempos fiz, na Holanda, a um dos Bairros que foram habitadas por Beguinas.
    Julgo que os tempos de hoje são, para algumas pessoas, um convite a este estilo de vida.
    Luisa

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  2. Concordo. Muito gostaria de participar de um beguinário.

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Maria do Céu