25 Novembro 2014

Discurso do Papa Francisco ao Parlamento Europeu



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Manter viva a realidade das democracias é um desafio deste momento histórico, evitando que a sua força real – força política expressiva dos povos – seja removida face à pressão de interesses multinacionais não universais, que as enfraquecem e transformam em sistemas uniformizadores de poder financeiro ao serviço de impérios desconhecidos. Este é um desafio que hoje vos coloca a história.
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A Europa sempre esteve na vanguarda dum louvável empenho a favor da ecologia. De facto, esta nossa terra tem necessidade de cuidados e atenções contínuos e é responsabilidade de cada um preservar a criação, dom precioso que Deus colocou nas mãos dos homens. Isto significa, por um lado, que a natureza está à nossa disposição, podemos gozar e fazer bom uso dela; mas, por outro, significa que não somos os seus senhores. Guardiões, mas não senhores. Por isso, devemos amá-la e respeitá-la; mas, «ao contrário, somos frequentemente levados pela soberba do domínio, da posse, da manipulação, da exploração; não a “guardamos”, não a respeitamos, não a consideramos como um dom gratuito do qual cuidar» . Mas, respeitar o ambiente não significa apenas limitar-se a evitar deturpá-lo, mas também utilizá-lo para o bem. Penso sobretudo no sector agrícola, chamado a dar apoio e alimento ao homem. Não se pode tolerar que milhões de pessoas no mundo morram de fome, enquanto toneladas de produtos alimentares são descartadas diariamente das nossas mesas. Além disso, respeitar a natureza lembra-nos que o próprio homem é parte fundamental dela. Por isso, a par duma ecologia ambiental, é preciso a ecologia humana, feita daquele respeito pela pessoa que hoje vos pretendi recordar com as minhas palavras.
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É tempo de promover as políticas de emprego, mas acima de tudo é necessário devolver dignidade ao trabalho, garantindo também condições adequadas para a sua realização. Isto implica, por um lado, encontrar novas maneiras para combinar a flexibilidade do mercado com as necessidades de estabilidade e certeza das perspectivas de emprego, indispensáveis para o desenvolvimento humano dos trabalhadores; por outro, significa fomentar um contexto social adequado, que não vise explorar as pessoas, mas garantir, através do trabalho, a possibilidade de construir uma família e educar os filhos.

De igual forma, é necessário enfrentar juntos a questão migratória. Não se pode tolerar que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério! Nos barcos que chegam diariamente às costas europeias, há homens e mulheres que precisam de acolhimento e ajuda. A falta de um apoio mútuo no seio da União Europeia arrisca-se a incentivar soluções particularistas para o problema, que não têm em conta a dignidade humana dos migrantes, promovendo o trabalho servil e contínuas tensões sociais. A Europa será capaz de enfrentar as problemáticas relacionadas com a imigração, se souber propor com clareza a sua identidade cultural e implementar legislações adequadas capazes de tutelar os direitos dos cidadãos europeus e, ao mesmo tempo, garantir o acolhimento dos imigrantes; se souber adoptar políticas justas, corajosas e concretas que ajudem os seus países de origem no desenvolvimento sociopolítico e na superação dos conflitos internos – a principal causa deste fenómeno – em vez das políticas interesseiras que aumentam e nutrem tais conflitos. É necessário agir sobre as causas e não apenas sobre os efeitos.

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A vós, legisladores, compete a tarefa de preservar e fazer crescer a identidade europeia, para que os cidadãos reencontrem confiança nas instituições da União e no projecto de paz e amizade que é o seu fundamento. Sabendo que, «quanto mais aumenta o poder dos homens, tanto mais cresce a sua responsabilidade, pessoal e comunitária» , exorto-vos a trabalhar para que a Europa redescubra a sua alma boa.

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Queridos Eurodeputados, chegou a hora de construir juntos a Europa que gira, não em torno da economia, mas da sacralidade da pessoa humana, dos valores inalienáveis; a Europa que abraça com coragem o seu passado e olha com confiança o seu futuro, para viver plenamente e com esperança o seu presente. Chegou o momento de abandonar a ideia de uma Europa temerosa e fechada sobre si mesma para suscitar e promover a Europa protagonista, portadora de ciência, de arte, de música, de valores humanos e também de fé. A Europa que contempla o céu e persegue ideais; a Europa que assiste, defende e tutela o homem; a Europa que caminha na terra segura e firme, precioso ponto de referência para toda a humanidade!

Excertos do Discurso do Papa Francisco ao Parlamento Europeu em Estrasburgo. 25 novembro 2014
(O texto em destaque é uma escolha deste blogue)
Fonte: Rádio Vaticano

 

09 Novembro 2014

25º Aniversário da Queda do Muro de Berlim!

01 Novembro 2014

Ser feliz: um direito e um dever

Le bonheur n'est pas le but, mais le moyen de la vie
(Paul Claudel)
On ne vit pas pour être heureux; en revanche, on vit grâce au bonheur.
(Christophe André)
 
le bonheur si je veux - J. Quoidbach
Quando vivemos num tempo marcado por profunda e duradoura crise exterior, como sucede no mundo actual e, de modo particular, no nosso País, o nosso olhar sobre a realidade e sobre nós próprios/as tende a tornar-se inseguro e sombrio e o comportamento social mais comum oscila entre a euforia de um divertimento fácil e irresponsável e a passividade e a resignação decorrentes da depressão colectiva. Reconhecê-lo constitui um primeiro passo para poder superar esta dupla ameaça e não desistir de procurar a felicidade.
Neste contexto, ganha particular importância o aprofundamento do nosso ser interior, o reconhecimento dos nossos recursos pessoais, a valorização da nossa auto-estima, a tomada de consciência do direito e do dever de sermos felizes.
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09 Outubro 2014

A Lealdade: um Valor a Preservar

Num artigo recente, Luigino Bruni afirmava que, pelas suas características intrínsecas, nomeadamente a sua invisibilidade imediata, há mais lealdade do que, à primeira vista, poderemos pensar. E ainda bem que assim é, pois estamos diante de uma virtude, ou de um valor, essencial para o bom funcionamento da sociedade e das múltiplas instituições que a integram, desde a família às empresas, às igrejas, às associações ou à organização política de uma nação.
 
Dito isto, não deixa de ser preocupante verificar que, no nosso tempo, a lealdade, tal como a honra da palavra dada ou do compromisso assumido, não parecem merecer o devido respeito e a correspondente concretização no tecido social e na apreciação do senso comum.
 
As consequências para a vida colectiva são conhecidas e os meios de comunicação enchem-nos, diariamente, de informação com exemplos eloquentes de faltas à lealdade e evidenciam, por contraste, como esta é pedra basilar do funcionamento da vida em comum.
 
Numa breve síntese, Luigino comenta: Ao longo de séculos empresas e instituições viveram de um património de lealdade que era produzido pelos valores, pelo esforço e pelo modo de fazer de famílias, igrejas e comunidades; e era alimentado pelas grandes narrativas, da arte e da literatura. Nas últimas décadas deixámos de produzir intencionalmente estes valores e modos de fazer; mas a necessidade de lealdade continua a existir e aumenta.
 
A lealdade é uma virtude difícil porque, não raro, comporta custos pessoais para quem a pratica e por isso não pode esquecer-se que vai a par com o reforço da espiritualidade.
 
O texto de Luigino Bruni que inspira esta reflexão pode ler-se na íntegra aqui.

01 Outubro 2014

Viver na Alegria

A Ser Feliz - Rodrigo Lastreto. 2013
 A alegria cristã, como a esperança, tem o seu fundamento na fidelidade de Deus, na certeza de que Ele mantém sempre as suas promessas. (Papa Francisco)

De uma forma ou outra, e ainda que por caminhos diferentes, todos procuramos a harmonia, a paz (connosco, com os outros, com a natureza, com o transcendente), a nossa realização pessoal e, consequentemente, a alegria de viver.
Não raro, porém, identificamos a nossa alegria com as situações exteriores em que estão asseguradas certas condições materiais e afectivas que privilegiamos (a saúde, a prosperidade, a segurança, a autonomia, o bem comum, …). Sucede, todavia, que, mais cedo ou mais tarde, os circunstancialismos da nossa existência podem modificar-se, significativamente, dando lugar a situações que comportam grandes perplexidades, frustrações, temores e angústias quanto ao futuro da nossa vida pessoal e colectiva. Então, cabe perguntar: nessas circunstâncias, é ainda possível viver na alegria?
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14 Setembro 2014

Que el Mundo Escuche el Clamor de los Pobres y de los Inocentes!

Recebi esta pungente missiva das Irmãs Dominicana de Santa Catarina de Siena - Irak e não posso calar o seu apelo a que se dê voz ao seu clamor que, por sua vez, é o eco do sofrimento atroz que se abateu sobre as comunidades cristãs do Iraque e de certas minorias étnicas, por acção dos jihadistas do designado estado islâmico.

A esperança destas comunidades reside na mobilização da opinião pública e dos líderes mundiais para que ponham termo a este genocídio e, por outro lado, para que, com a maior urgência, tentem minorar as condições deshumanas em que presentemente vivem os refugiados.

Transcrevo de seguida esta carta em castelhano e tal como ela me chegou através de fonte fidedigna, na expectativa de que a mesma ganhe a maior divulgação possível, suprindo o manto de silêncio que certos órgãos de comunicação social parecem preferir.
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    Hola a todos:

    Continuamos compartiendo nuestra lucha diaria con ustedes con la esperanza de que nuestro grito pueda ser escuchado en todo el mundo. Somos como el hombre ciego de Jericó (Mc 10, 46-52), el cual no tenía más que su voz para implorar misericordia a Jesús. Aunque algunas personas lo ignorasen otras lo escucharon y lo ayudaron. ¡Nosotras contamos con personas que nos escuchen!

    Estamos comenzando la tercera semana de desplazamientos. Las cosas se mueven muy lentamente en cuanto a lo que se refiere a proporcionar refugio, alimentos y necesidades básicas para las personas. Todavía hay gente que vive en las calles. Todavía no hay campamentos organizados fuera de las escuelas que se utilizan como centros de refugiados. Un edificio de tres plantas aún sin acabar también ha sido utilizado como refugio. Para salvaguardar su privacidad en este edificio inacabado las familias han dividido los espacios en habitaciones utilizando láminas de plástico. Estos lugares parecen establos. Todos nos hacemos la misma pregunta: ¿hay algún tipo de final a la vista? Apreciamos todos los esfuerzos que se han hecho para proporcionar ayuda a las personas desplazadas; sin embargo, han de tener en cuenta que el suministro de alimentos no es la única necesidad esencial que se requiere. Nuestro caso es mucho más grande. Estamos hablando de dos minorías (cristianos y mazdeístas) que han perdido sus tierras, sus hogares, sus pertenencias, su trabajo, su dinero, algunos se han visto separados de sus familias y sus seres queridos y todos están perseguidos a causa de su religión.

    Los líderes de nuestra Iglesia están actuando lo mejor que pueden para resolver el problema. Se han reunido con los dirigentes políticos y con los presidentes de Irak y Kurdistán; pero las iniciativas y acciones llevadas a cabo son lentas y modestas. En realidad todas las reuniones políticas han concluido en nada. Hasta ahora no se ha llegado a ninguna solución con respecto a la situación de las minorías desplazadas. Por esta razón la confianza en los líderes políticos se ha perdido completamente. La gente ya no puede aguantar más. Es demasiado pesada la carga. Ayer un joven expresó que prefería morir a vivir sin dignidad. Las personas sienten que han sido despojadas de toda dignidad. Estamos siendo perseguidos a causa de nuestra religión. Ninguno de nosotros podía haber pensado que íbamos a vivir en campos de refugiados a causa de nuestra religión.

    Es difícil creer que esto pueda suceder en el siglo XXI. Nos preguntamos qué es lo que está sucediendo exactamente: ¿es otro plan o acuerdo para dividir Irak? Si eso es cierto, ¿por quién y por qué? ¿por qué los problemas que hubo en 1916 para dividir Oriente Medio se están repitiendo ahora? En esos momentos se trataba de una cuestión política y personas inocentes pagaron por ello. Es evidente que ahora hay gente astuta y culpable de la división de Irak. En 1916 perdimos a seis hermanas, muchos cristianos murieron y muchos fueron dispersados: ¿es circunstancial la situación de división que ahora afrontamos o es deliberada?

    Sin embargo, la lucha no sólo se lleva a cabo en los campos de refugiados. Lo que ha ocurrido en los pueblos cristianos que han sido evacuados es incluso peor. El Estado Islámico forzó  a los cristianos a abandonar sus casas antes de la noche del 6 de agosto. Ayer setenta y dos personas fueron expulsadas de Karakosh.
   
 Sin embargo, no todos llegaron. Los que llegaron ayer por la noche se encontraban en unas condiciones miserables. Tuvieron que cruzar el rio Al-Khavi (un afluente del Gran Zab) a nado porque el puente había sido destruido. Todavía quedan algunos a la otra orilla del río. No sabemos cu áondo van a llegar a Erbil. Ello depende de la situación y negociaciones entre el Pershmerga y el Estado Islámico. Un grupo de personas fueron a buscar a los ancianos y a los que no podían caminar. Una de nuestras hermanas fue para traer a sus padres y le contaron lo sucedido. Otra mujer nos relató que la habían separado de su marido y sus hijos y que no sabía nada de ellos, probablemente son algunos de los que quedan a la otra orilla; o también pueden estar entre los rehenes capturados por el Estado Islámico. Una hija de tres años fue arrebatada de las rodillas de su madre y tampoco se sabe nada de ella.

    No sabemos por qué el Estado Islámico está enviando gente a Karakosh, pero hemos estado oyendo de boca de aquellos que han ido llegando que el Estado Islámico está introduciendo barriles de contenido desconocido en la ciudad.

    Además conocemos el caso de cuatro familias Cristianas que están atrapadas en Sinjar desde hace tres semanas. Probablemente se estén quedando sin comida y sin agua. Si no reciben ayuda pronto morirán allí. Actualmente no tenemos contacto con ellos y no hay forma de negociar con el Estado Islámico.
  
  Por lo que concierne a nuestra comunidad sabemos que nuestro convento de Tel Kaif está siendo utilizado como sede del Estado Islámico. También sabemos que han ocupado nuestro convento de Karakosh. Los que han llegado recientemente nos han dicho que las santas imágenes, los iconos y todas las estatuas están siendo destruidas. Las cruces han sido derribadas de los tejados de las iglesias y han sido reemplazadas por las banderas del Estado Islámico.

    Esto no sólo ha sucedido en Karakosh y Tel Kaif. En Baqofa una de nuestras hermanas habían escuchado que la situación estaba calmada. Volvió con un pequeño grupo de personas a buscar su medicina. Cuando llegaron encontraron el convento registrado y todo tirado por las habitaciones. En el momento en que entraron al convento tres bombas impactaron contra la ciudad. Salieron inmediatamente.

    Aparte de lo que está sucediendo con los cristianos sabemos que ayer, viernes día 22, un fanático suicida Chiíta y hombres armados atacaron la mezquita Suní de Abu Musab situada en un pueblo bajo el control del gobierno de Irak en la provincia de Diyala, dejando sesenta y ocho muertos. Es desgarrador oír hablar de gente que muere asesinada mientras reza.

    Por lo que respecta a los medios de comunicación, podemos afirmar que está masacre eclipsó lo que está pasando con los cristianos en la llanura de Nínive. Tenemos miedo de que nuestra lucha se convierta en una cuestión privada y escondida y que no vaya a tener impacto en el mundo nunca más.

    Por último, tenemos que decir que la gente está perdiendo la paciencia. Han perdido todo lo que tenían en sus lugares de origen: iglesias, campanas de las iglesias, barrios y vecinos. Es desgarrador para ellos escuchar que sus hogares han sido saqueados. Aunque aman sus lugares de origen la mayoría de ellos están pensando en abandonar el país para poder vivir con dignidad y encontrar un futuro para sus hijos. Es difícil tener esperanza en Irak o confiar en los líderes políticos.

    Por favor, manténganos presentes en sus oraciones.
    
    Hermana María Hanna OP.
    Hermanas Dominicas de Santa Catalina de Siena-Irak

    P.S.
    ​
    Por favor, comparta esta carta con otras personas. Deje que el mundo escuche el clamor de los pobres y de los inocentes.
    
    (24 de agosto de 2014)


01 Setembro 2014

Permanecei Vigilantes

Tudo o que me acontece pede decifração. 
(Y. K. Centeno, in Os jardins de Eva)

Araucária de Mambré - CT. 2014
O mês de Agosto, entre nós, chamado de férias, foi repleto de perplexidades e incertezas, no plano nacional e internacional.
Acumularam-se os focos de tensão e de conflito em várias partes do Mundo. Recrudesceram as perseguições religiosas e étnicas, com sinais de violência que julgávamos banidos e impossíveis de repetir à luz da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
No plano nacional, assistimos ao desmoronar de um império financeiro que parecia de boa saúde, com sequelas várias para muitos cidadãos e cidadãs anónimos que nele investiram as suas poupanças e depositaram a sua confiança e, sobretudo, com gravíssimas consequências, ainda inteiramente imprevisíveis, para a economia, as finanças públicas e o bom nome do País nos mercados e em instâncias supranacionais.
De tudo isto abundaram relatos nos meios de comunicação social…
Contudo, de pouco ou nada se falou do impacto destes acontecimentos no plano mais profundo da consciência individual, das suas crenças e convicções e no modo de ser e de agir de cada pessoa e dos diferentes grupos humanos de pertença.
Neste contexto, como dar seguimento ao conselho de Jesus relatado no Evangelho de Marcos (13,33), permanecei vigilantes?
(...)