01 Dezembro 2009

Cuidar é uma atitude de vida,
uma cultura, uma espiritualidade

(...)

A problemática das alterações climáticas e, mais amplamente, a preocupação com a qualidade ambiental, têm o mérito de nos obrigarem a questionar o paradigma do nosso relacionamento pessoal e colectivo com aquilo que existe e de nos levarem a rever a concepção que temos do lugar em que nos posicionamos na nossa relação com o mundo. Trata-se de uma reflexão inadiável e com consequências sérias para o nosso agir, para o nosso presente e para o nosso futuro. (...)

Por outro lado, é imperioso que aprendamos a interiorizar uma atitude de cuidado como modo de ser permanente, com o que tal pressupõe de atenção vigilante às necessidades dos outros seres à nossa volta e às suas potencialidades de desenvolvimento e que transmitamos este modo de estar na vida às gerações mais novas. (...)

O cuidado, mais do que um acto, é uma atitude, lembra Leonardo Boff e, se de atitude se trata, é também algo que deve configurar um certo modo de ser; é uma cultura e uma espiritualidade, um estilo de vida portador de bem-aventurança. (...)

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Imagem: Mother Earth Holding the Planet - Image Zoo Ilustration, 2009

15 Novembro 2009

Abraão e Sara não sabem confiar
nos tempos de Deus
- Génesis, capítulo 16

No site da Fundação Betânia foi publicada a nova série de estudos sobre o Génesis, no âmbito do Projecto Ler a Bíblia, coordenado por Nicoletta Crosti.

Estes estudos podem ser comentados no Ouvido do Vento.

(...)

v. 3 Sara… tomou Agar… e deu-a como mulher a Abraão seu marido. Sara vive a sua esterilidade como uma culpa, que a humilha, e procura remédio para ela segundo o costume do tempo. No caso de esterilidade da mulher legítima, o código de Hamurábi (1700 a.C.) determinava que num contexto monogâmico, como o dos babilónicos, a mulher poderia oferecer ao marido uma escrava.

A escrava dava à luz em cima dos joelhos da sua senhora e assim também a criança, simbolicamente, nascia quase do próprio seio da mulher legítima. (Gn 30, 3¬9).

Sara não sabe ser serva do projecto de Adonai, e não espera que seja o próprio Deus a fazê-la sair da sua humilhação, segundo a figura do servo de Isaías que se confia no Senhor (Is 49, 1-7). Fá-lo-á Maria de Nazaré aceitando a humilhação de ser tida como adúltera e esperando em Deus a sua libertação.

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- Nicoletta Crosti,

Abraão e Sara não sabem confiar nos tempos de Deus

- Génesis, capítulo 16

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01 Novembro 2009

Na senda de uma nova consciência moral
- De um “eu egoísta” a um “nós plural”

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Reconhecemos, hoje, através da dura lição dos factos (o desemprego, a pobreza, a má qualidade das condições de trabalho e de vida urbana, a destruição do ambiente, as guerras e as sérias ameaças à paz) que o “eu egoísta” é uma matriz demasiadamente estreita para enquadrar o comportamento humano nas suas múltiplas vertentes de membro de uma família, de uma sociedade, de uma empresa, de uma comunidade local, de um tempo e de um espaço.

(...)

O modelo económico neo-liberal e a cultura que o acompanha e sustenta subestimaram, perigosamente, esta dimensão do “nós plural” e a sua relação com o Planeta e, hoje, as sociedades confrontam-se com atitudes e comportamentos individuais irracionais e completamente desfocados do bem comum e da sustentabilidade da vida na Terra. Impõe-se, assim, uma nova compreensão da nossa condição de seres humanos e a aprendizagem de novas atitudes e comportamentos mais ajustados à realidade que percepcionamos bem como a definição de novas arquitecturas para a organização das sociedades.

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Imagem: Man Holding Windows - Jams Endicott, 2008

15 Outubro 2009

Deus põe à prova a fé de Abraão
e faz uma Aliança com ele

Génesis capítulo 15

No site da Fundação Betânia foi publicada a nova série de estudos sobre o Génesis, no âmbito do Projecto Ler a Bíblia, coordenado por Nicoletta Crosti.

Estes estudos podem ser comentados no Ouvido do Vento.

As incongruentes narrativas deste capítulo evidenciam a presença de duas tradições diversas. A primeira, vv. 1-6, com Abraão como sujeito principal, nasce da atormentada experiência de fé dos hebreus deportados na Babilónia, que se cansavam de crer nas promessas do Senhor e que se colocavam muitas questões. A segunda, vv. 7-19, com Adonai no centro da narração, reporta-se a uma tradição muito antiga, talvez a mais arcaica no que diz respeito à aliança. Os dois relatos têm a mesma estrutura: uma teofania, um dito de salvação, uma dúvida de Abraão, um sinal do Senhor.

- Nicoletta Crosti,

Deus põe à prova a fé de Abraão e faz uma Aliança com ele

- Génesis, capítulo 15

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01 Outubro 2009

Por uma ética de humanização e convivialidade

Temos sinais preocupantes de que vem crescendo uma perigosa crispação na nossa sociedade.

São sinais notórios: a nível da linguagem (basta dar atenção às formas de tratamento usadas entre jovens - e menos jovens!); nas relações correntes (transportes, compras, atendimentos nos vários serviços, etc.); nas relações em meio escolar, onde a tradicional camaradagem se converte, muitas vezes, em disputa agressiva pelos melhores lugares; no discurso político deslizante para a maledicência e a ofensa pessoal; na comunicação social e suas telenovelas, onde é regra a intriga e a violência, servidas como padrão subliminar de comportamento.

(...)

Entre os cenários de futuro possível, o mais trágico é aquele que assume como inevitável a barbárie que se perfila no horizonte, porque de um tal cenário se destilam comportamentos do tipo “salve-se quem puder”, predadores de um património universal de humanização.

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Man Yelling into Megaphone at Other Man - Alberto_Ruggieri, 2008

15 Setembro 2009

Abraão Salva Lot e é abençoado pelo rei de Salém - Génesis, capítulo 14

No site da Fundação Betânia foi publicada a nova série de estudos sobre o Génesis, no âmbito do Projecto Ler a Bíblia, coordenado por Nicoletta Crosti.

Estes estudos podem ser comentados no Ouvido do Vento.

As novas descobertas sobre o oriente antigo demonstraram que os relatos deste capítulo fundamentaram-se numa tradição antiquíssima, que demarca este capítulo do resto das tradições patriarcais. Está repleto de elementos fantásticos como a vitória dos 318 homens sobre o exército coligado dos reis do oriente. A localidade de Dan não existia no tempo pré-israelítico. Não se chegou a identificar nem os nomes das cidades da Cananeia nem os reis que são mencionados. Parece que mais do que castigar as pequenas cidades da Cananeia, os reis orientais pretendiam abrir uma estrada de acesso ao mar Vermelho e ao Egipto.

vv. 14-16 Quando Abraão soube que os seus parentes tinham sido feitos prisioneiros … Abraão entra em guerra apenas para salvar o seu sobrinho Lot, e não para participar na guerra contra os reis. Num movimento astucioso Abraão e os seus três aliados atingem a retaguarda do exército, trazem o espólio e recuperam Lot, a sua família e os seus bens. Abraão tornou-se vencedor porque, apesar do número exíguo de soldados, Deus estava do seu lado (veja-se David e Golias em I Sam 17,32-51).

(...)

A abertura de Abraão à figura de Melquisedec, que exercia um culto extra-israelítico cananeu, vem dado como exemplo da abertura à fé dos outros.

(Is 66, 18b-21; Ml 1,11).

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vv. 22-24 Abraão diz ao rei de Sodoma… nada tomarei daquilo que é teu… Abraão renuncia ao seu direito de reter o património, enquanto vencedor, e mostra-se mais uma vez generoso, não apegado aos bens.

- Nicoletta Crosti,

Abraão é generoso com Lot Deus recompensa-o

- Génesis, capítulo 14

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14 Setembro 2009

Escuta, vazio e silêncio

Relacinado com o alcance da escuta, não resisto a partilhar um texto de Raúl Solnado que Frei Bento recorda no seu artigo de ontem:
Numa das vezes que fui à Expo, em Lisboa, descobri, estranhamente, uma pequena sala completamente despojada, apenas com meia dúzia de bancos corridos. Nada mais tinha. Não existia ali qualquer sinal religioso e por essa razão pensei que aquele espaço se tratava de um templo grandioso.
“Quase como um espanto, senti uma sensação que nunca sentira antes e, de repente, uma vontade de rezar não sei a quem ou a quê. Sentei-me num daqueles bancos, fechei os olhos, apertei as mãos, entrelacei os dedos e comecei a sentir uma emoção rara, um silêncio absoluto. Tudo o que pensava só poderia ser trazido por um Deus que ali deveria viver e que me envolvia no meu corpo amolecido. O meu pensamento aquietou-se naquele pasmo deslumbrante, naquela serenidade, naquela paz.
“Quando os meus olhos se abriram, aquele Deus tinha desaparecido em qualquer canto que só Ele conhece, um canto que nunca ninguém conheceu e quando saí daquela porta, corri para a beira do rio para dar um grito de gratidão à minha alma, e sorri para o Universo.
”Aquela vírgula de tempo foi o mais belo minuto de silêncio que iluminou a minha vida e fez com que eu me reencontrasse. Resta-me a esperança de que, num tempo que seja breve, me volte a acontecer. Que esse meu Deus assim qu
eira” (Raul Solnado, Um Vazio no Tempo,

01 Setembro 2009

Escutar para Ver

Vivemos imersos numa cultura que olha, que ouve, que fala, que valoriza a muita informação e o conhecimento superficial da última hora.

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Quando falo de escuta, quero referir-me, em primeiro lugar, à atitude que preside ao encontro entre duas ou mais pessoas e à conversa que entre elas se estabelece.

Tem-se vindo a perder a capacidade corrente de escuta no seio dos pequenos grupos e das famílias, a tal ponto que, hoje, em múltiplas circunstâncias, se torna necessário recorrer a profissionais de “escuta” para compensar um tal défice.

Escutar não é ouvir e muitas vezes o que verificamos à nossa volta é que se multiplicam as palavras num imenso frenesim de as fazer ouvir, mas sem cuidar de que aquele ou aquela para quem se fala tenha oportunidade de reagir, de expor as suas próprias ideias, de soltar os seus sentimentos, de ter tempo para interagir e assimilar criticamente o que é dito.

(...)

Lembrar a importância da escuta adquire particular acuidade no período eleitoral em que nos encontramos. Como seriam muito mais fecundos os debates político-partidários ou mesmo as meras conversas e comentários acerca dos diferentes projectos políticos, se todos cuidássemos de praticar uma escuta atenta, livre de preconceitos e de falsas verdades e nos orientássemos por critérios de bem comum.

(...)

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Imagem: Giant Ear and Man Listening - James Endicott, 2008

10 Agosto 2009

Mundo global.
Solidariedade global

Chegou ao nosso conhecimento a carta que personalidades angolanas tornaram pública por ocasião da recente visita diplomática a Angola pela Secretária de Estado dos Estados Unidos, Hilary Clinton.São vozes que correram o risco de denunciarem um vasto conjunto de atropelos à democracia e aos direitos humanos que se verifica naquele país. Merecem, por isso, a nossa admiração e o nosso apoio.

O Ouvido do Vento quer enaltecer a coragem dos subscritores enquanto defensores da democracia e dos direitos humanos do povo angolano e chamar a atenção para a necessidade de uma efectiva solidariedade, por parte da sociedade civil e dos governos dos países democráticos, que esteja à altura dos desafios e potencialidades do mundo globalizado em que vivemos.

Os grandes interesses económicos e de geo-estratégia não podem abafar o clamor dos oprimidos nem ignorar a violação reiterada dos mais elementares princípios básicos do exercício do poder democrático em qualquer parte do mundo.

Dar a conhecer a situação em Angola é, a nosso ver, um gesto de solidariedade global.

15 Julho 2009

Abraão é generoso com Lot Deus recompensa-o

- Génesis, capítulo 13

No site da Fundação Betânia foi publicada a nova série de estudos sobre o Génesis, no âmbito do Projecto Ler a Bíblia, coordenado por Nicoletta Crosti.

Estes estudos podem ser comentados no Ouvido do Vento.


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v. 8-9 Abraão disse a Lot: que não haja discórdia entre mim e ti ….separa-te de mim. Abraão aposta mais na paz do que no ganho (Pr 17,1). É melhor separar-se do que litigar. Por idade e parentesco, Abraão tinha o direito de fazer a primeira escolha, mas, em vez disso, deixa que seja o sobrinho a escolher. Abraão tem o comportamento de um homem generoso. O autor quer exaltar este procedimento de Abraão.

v. 10-11 Então Lot…viu que todo o vale do Jordão…era como o jardim do Senhor.

De Betel avista-se o leito do Jordão junto ao lado meridional do Mar Morto.

Lot escolhe a parte mais rica e fértil, fácil de trabalhar. O autor ironiza esta escolha, por este paraíso se tornar em breve num inferno e, assim, mostra a superficialidade de Lot que só olha à aparência e persegue a vida fácil (veja-se Mt 7,13-14). Abraão contenta-se com a zona montanhosa a oeste do Jordão.

v. 12 Lot estabelece-se nas cidades do vale. Para o autor, esta escolha mostra a pouca importância que Lot dava aos ensinamentos de Deus, visto que as cidades eram consideradas lugares viciosos. Ainda por cima, Lot decide fixar-se na cidade de Sodoma, conhecida pela vida perversa dos seus habitantes (...).

v. 15 Toda a terra que vês te darei a ti e à tua descendência para sempre. As dimensões da terra são as do reino de Salomão (é usada aqui uma técnica retrospectiva), de Dan no norte a Kadesh no sul. O dom da terra é, explicitamente, para sempre. (veja-se Gn 17,8) Será exactamente esta declaração que dará esperança aos exilados na Babilónia os quais, tendo infringido a aliança, pensavam ter também perdido a posse da terra. Vejam-se os cânticos do retorno dos profetas, a partir de Is 54,1-10 e Jr 31, 3-14. Esta terra é um dom gratuito que não pede nada em troca, não é uma aliança que possa ser quebrada.

(...)

- Nicoletta Crosti,

Abraão é generoso com Lot Deus recompensa-o

- Génesis, capítulo 13

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