01 Abril 2014

Em tempo de crise reforçar a confiança

A minha confiança está em Deus; dele me vem a minha salvação. (Sl 62)
A fé é aquilo que entre o visível e o invisível organiza a batida da credulidade e da confiança. (…).
Que o Espírito nos torne como o cedro, um espaço de abrigo para os dias de chuva e de calor.
J.A. Mourão, in Quem vigia o vento não semeia, p.245

O mundo sobre Ella-Hanny Saraiva.2010
Não é por acaso que a sabedoria do povo hebraico expressa nos salmos insiste na confiança. A título de exemplo, refiro estes dois magníficos versículos dos salmos 24 e 40,respectivamente: Confia a minha alma no Senhor, nele está a minha esperança ou Feliz o homem que confia no Senhor. É como árvore plantada nas margens de um rio que dará fruto abundante.

A confiança é uma atitude aparentemente espontânea. Sem confiança na mãe, que a alimenta, a criança não poderia subsistir nos primeiros tempos de vida.

Sem um mínimo de confiança na organização de uma economia e sociedade, como esperar encontrar pão fresco todos os dias?
(...)

28 Março 2014

Religião e Espiritualidade


Ainda há muita gente que confunde religião com espiritualidade, mas trata-se de duas realidades diferentes.

Num pequeno texto, de circulação interna, Fernando Belo, Professor da Faculdade de Letras de Lisboa, vem chamar a atenção para a necessidade desta distinção. Esta clarificação é fundamental no caso do cristianismo.

Como diz Fernando Belo: No evangelho, a distinção é clara desde o início: o apelo à conversão com o baptismo como ritual de ruptura, tendo sido o mundo político-religioso quem condenou os dois que apelavam à conversão, João Baptista e Jesus. Este opôs Deus não apenas ao Dinheiro (Mateus 6,24) e ao poder político ocupante de César (idem 22,21) mas também ao Deus dos mortos (“ele não é um Deus de mortos mas de vivos”, Marcos 12,27), isto é, ao poder religioso do Templo, como mostra uma palavra dirigida a alguém que queria seguir o mestre mas primeiro devia enterrar o seu pai: “deixa os mortos enterrarem os seus mortos” (Lucas 9,60); o Deus dos mortos é o dos antepassados mortos e enterrados, donde deriva a religião. Durante alguns séculos, o cristianismo foi um movimento espiritual no meio de outros no império romano, foi mesmo perigoso ser cristão em certas épocas, mas depois os Césares escolheram-no como religião oficial em vez da ancestral. Em poucas gerações no Ocidente, o cristianismo tornou-se religião holística ancestral, o baptismo tornado rito de bebés, sinal evidente da mutação. Mas há outro sinal muito mais óbvio: a partir daí, a religião não deixou de parir nas suas margens movimentos espirituais que se referiam à aposta evangélica adulta contra os senhores deste mundo.

O Papa Francisco com a sua palavra profética e testemunho de vida em gestos simples mas cheios de simbologia (por exemplo, a sua opção de não habitar no Palácio do Vaticano!) é um apelo eloquente a que temos de cuidar da espiritualidade evangélica e, através da vida pessoal e das comunidades cristãs, torná-la presente no mundo em que vivemos, nas famílias como nas empresas, na vida política como nas instâncias de regulação financeira, uma espiritualidade que permeie a cultura e inspire e motive as opções do quotidiano.

Este modo de viver a fé cristã, hoje, será uma ponte necessária para saber acolher outras espiritualidades e com elas cooperar na concretização de um mundo mais justo, solidário e sustentável.

Concluo com o final do texto que inspirou esta reflexão:

Faz parte de ser espiritual hoje que, crentes ou não, demos as mãos – livres e solidárias – contra a dominação da alta finança sobre o medíocre poder político e os médias ao seu serviço.

18 Março 2014

Dizer o Mistério [4]

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Esta tarde, ao atravessar um jardim da cidade onde moro, fui surpreendida por um gesto de insólita gentileza. Uma menina caminhava por ali com uma alegria suave. Trazia um punhado de flores que vinha apanhando do chão... Ao chegar perto de mim ofereceu-me esta, num gesto espontâneo de contentamento surpreendente! Aceitei, dei-lhe um beijo, agradeci olhando em volta à procura de algum adulto que a acompanhasse... Não vi ninguém que parecesse interessado/a no episódio. Então perguntei: Como te chamas? Ela, - Natacha! E continuou a distribuir flores... Como a Natacha, em homenagem às crianças que nos surpreendem com gestos de carinhosa esperança, deixo-vos a minha flor.
A foto que vos deixo é uma forma pobre de partilha do indizível, como pobres são todas as palavras para dizer o mistério. O gesto e aquela alegria espontânea são, para mim, um sinal da presença misteriosa de Deus num instante de desconcerto e assombro.

Obrigada Natacha.

08 Março 2014

Sem separar a linha da terra e do céu

No escrito de Março deixava um convite para esta quaresma 2014 – Redescobrir a fonte donde emana o nosso ser e agir. Neste pequeno texto, José Augusto Mourão aponta-nos um caminho.
(...)
 
8. Este é o tempo da grande iluminação: Ver é estar de vigia ao que deve surgir do fundo sem nome, do silêncio, sem separarmos a linha da terra do céu. Ver é existir a partir do nosso futuro. O diabo é exactamente aquele que separa o céu e a terra, o regente do reino-de-baixo, recusando a referência celeste. Não é possível desertar para ganhar um qualquer “deserto” – o deserto é a atracção do horizonte negativo. O desejo de um corpo de velocidade absoluta é uma tentação do diabo a que pertence o culto da superfície-mãe: Lilith.

9. Ver não é rever nem adivinhar contornos, formas de habitar. É preciso manter atenção ao tempo, não quebrar a linha inseparável entre o céu e aterra. O confronto adaptativo não salva porque não arrisca nada. Não era apenas no tempo de Granada que havia homens “dormidos e desalmados” a precisar daquele que baixou do céu á terra vestido da carne humana. Peçamos aquilo que Romano Melódio pediu: Vós que tendes sede vinde a mim e bebei. Orvalhe este coração humilhado/ que o caminho errante dividiu/ e consumiu de fome e sede/fome não de alimento, e sede/ não de bebida/ mas de escutar a palavra do Espírito/ assim ele geme baixinho esperando/ que o julgues/ tu que apareceste e tudo iluminaste.

(José Augusto Mourão: O rosto e a sua sombra, in Quem vigia o vento não semeia, p. 354-355)

06 Março 2014

Redescobrir a Fonte

Todos os seres humanos, homens e mulheres, trazem consigo um centro a partir do qual se constrói a própria vida, na sua singularidade, resposta tecida no enfrentar das circunstâncias em que toda a existência humana se inscreve. 

Deserto de Atacama.mcst - 2001
É neste centro que reside o chamamento à vida no que esta comporta de sonho, de liberdade, de desejo fundo de paz, de realização, de amor, de Verdade. 

O drama da nossa cultura ocidental e do estilo de vida que, mais ou menos inconscientemente, vamos adoptando, é que nos fazem esquecer este centro: ou o inquinam com falsas verdades, deduzidas de contra valores; ou, pura e simplesmente, o ignoram, abafando-o com os muitos ruídos da Cidade.

08 Fevereiro 2014

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2014

(…)

Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?

 (…)

O nosso testemunho

Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d'Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.

(…)

À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.

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