01 janeiro 2019

Todos somos responsáveis pelo bem comum

As recentes manifestações de contestação social (sejam elas as greves simultâneas por parte de distintos sectores socioprofissionais que se vêm sucedendo em Portugal ou os movimentos inorgânicos, como foram os “coletes amarelos” nascidos em França e, posteriormente, replicados em outras geografias, incluindo o nosso País) merecem reflexão, não só pelos seus efeitos, mas também pelas causas que estão na sua génese e propalação e, sobretudo, porque é urgente ir ao encontro destas vozes, saber escutá-las e dar-lhes resposta.
Água-um bem comum ameaçado.[link]
Não é por acaso que tais manifestações surgem em países com níveis de riqueza e de prosperidade elevados, civilizações avançadas no conhecimento científico e tecnológico e no reconhecimento de direitos humanos fundamentais, espaços de liberdade e garantidos direitos constitucionais de igualdade de oportunidades para todos. Por outro lado, dir-se-ia que, em termos comparativos, tanto no espaço como no tempo, a realidade, que é objecto de contestação, apresenta, no entanto, uma evolução positiva. Com efeito, é inegável que vive-se melhor hoje do que há 30 ou 50 anos e a Europa, com o seu modo de vida, continua a ser um polo de atracção para refugiados e migrantes de outros continentes.
Porquê, então, esta onda de contestação social? (...)  

01 dezembro 2018

Escutar. Responder. Libertar.

Este pobre clama e o Senhor o escuta (Sal 34, 7). Façamos também nossas estas palavras do Salmista, quando nos vemos confrontados com as mais variadas condições de sofrimento e marginalização em que vivem tantos irmãos e irmãs, que nos habituamos a designar com o termo genérico de “pobres”. (Papa Francisco)
La gente pobre. Jazmin Ruiz. 2015
É com estas palavras que o Papa Francisco começa a sua Mensagem para a celebração do dia Mundial dos pobres de 2018. Retomo-as, no início do novo ciclo litúrgico, como inspiração para este tempo de advento e da quadra natalícia que se avizinha.
Mergulhados e imbuídos, que estamos, na cultura dominante, corremos o risco de pôr entre parêntesis critérios evangélicos e ceder à tentação das propostas que todos os dias nos chegam pelos media e pelo marketing e fazer desta época o ápice do consumismo e do negócio, esquecendo os mais frágeis e descurando impactos sobre o cuidado a ter com a nossa casa comum. 
Uma redobrada atenção aos mais pobres pode servir-nos de antídoto ao consumismo, ao desperdício e à cultura do descarte e abrir a nossa mente e o nosso coração aos valores da inclusão, da solidariedade e da fraternidade, em consonância com o evangelho.
Na mensagem de Francisco, encontramos, em espelho com a tradição bíblica, aquilo que deve ser a relação dos crentes com os mais frágeis e marginalizados, incluindo o Planeta em que habitamos.
Francisco destaca três verbos que exprimem a relação do pobre com Deus. São palavras-chave que devemos ter em conta: escutar, responder, libertar. (...) 

01 novembro 2018

Espanto e agir consequente

Espanta-te ainda, espanta-te mais uma vez.
(José Tolentino Mendonça, Elogio da sede, 2018)

Foi com as palavras desta epígrafe que Tolentino Mendonça deu início à sua primeira pregação dos exercícios espirituais dirigidos ao papa, cardeais e demais membros da Cúria, na quaresma deste ano. Subjacente a este inusitado convite-desafio, estava o texto do evangelho de João, a narrativa do encontro de Jesus com a samaritana à beira do poço de Jacob e as suas intrigantes palavras “dá-me de beber”. Ele homem judeu e ela mulher samaritana…
Espanta-te ainda, espanta-te mais uma vez, são palavras que nos interpelam e desafiam. A nós que, tal como os seus primeiros destinatários, a dada altura da vida, parece que já vimos tudo, já vivemos e sabemos tudo, e olhamos para a realidade protegidos por aquilo que julgamos ser uma distância de um acumulado saber.
O espanto nasce da atenção que prestamos à vida nas suas múltiplas facetas, no plano pessoal e na relação com os demais seres, no espaço da proximidade e vizinhança ou na lonjura do mundo e do cosmos, no avanço do conhecimento e da tecnologia ou na política. Conjuga-se com a capacidade de surpresa e admiração, com sentimentos de medo ou de júbilo. 
Por outro lado, o espanto suscita curiosidade e interrogação (o filosofar assenta alicerces no espanto!), mas ficará em défice de completude se não nos move ao discernimento contínuo e ao agir consequente. (...)
Créditos de imagem:
Pope Paul VI and Archbishop Oscar Romero pose together in an undated file photo, in Photo courtesy of Oficina de Canonizacion de Mons. Oscar Romero.

03 outubro 2018

Os jovens, a fé e o discernimento vocacional

Começa hoje, em Roma, o Sínodo dos Bispos convocado pelo papa Francisco para debater este tema, de indiscutível relevância para o futuro das nossas sociedades e da própria Igreja.

Ao longo da preparação sucederam-se os apelos de Francisco. Alguém (M. Michela Nicolais) procurou sistematizar estes desafios num conjunto de frases-chave que, hoje, gosto de recordar:
  • Espero que façam barulho
  • Não olhem a vida da varanda
  • Não beber a fé espremida
  • Não aos jovens de museu, sim aos jovens santos
  • Viver, em vez de ir vivendo
  • Sonhai grandes coisas
  • Aprendamos a chorar.
  • Sede castos, sede castos.
  • É preciso andar contracorrente
  • Quem não arrisca não caminha
Mais recentemente, o papa octogenário insistia: É preciso coragem para dar um salto para a frente, um salto arriscado e ousado para, como Jesus, sonhar e realizar o Reino de Deus, comprometendo-se com uma humanidade mais fraterna (Agosto 2018).

01 outubro 2018

A urgência de uma mística de olhos abertos e coração compassivo

(…) tomamos consciência da necessidade e urgência de uma mística de olhos abertos, coração solidário e amor politicamente eficaz, de uma mística que leve a escutar o grito da Terra, o clamor de milhões de pessoas famintas de pão e de direitos humanos e lutar por outro mundo possível.  (Mensagem final do 38º Congresso de Teologia, Madrid, 9 Setembro 2018)
Nos últimos dias a comunicação social tem permitido que acompanhemos em tempo real as grandes calamidades que têm assolado o nosso planeta em vastas regiões do Mundo e evidenciado as suas consequências dramáticas, visíveis no número de vítimas, deslocações forçadas de milhões de pessoas, perdas de bens materiais irreparáveis.
furacao Florence 2018Talvez não inteiramente, mas seguramente em parte, a violência destes fenómenos naturais e a sua maior frequência vêm alertar-nos para as alterações climáticas em curso e para as suas causas e, por esta via, evidenciar que precisamos de agir com determinação, responsabilizando por isso os diferentes actores políticos e instituições.
Não basta, porém, acumular conhecimento e compreensão destes fenómenos ou multiplicar iniciativas de alto nível para firmar acordos internacionais para minimizar os seus impactos; a experiência vem mostrando que é fundamental que mudem as atitudes e os comportamentos da Humanidade, nomeadamente no que se refere à cultura, à economia, à solidariedade e que se crie e generalize uma mística de “cuidado com a casa comum”.
Porquê convocar a mística para enfrentar alterações climáticas e demais crises ecológicas? E com que contornos?  (...)
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Imagem:14. set. 2018 - Russ Lewis protege os olhos de rajadas de vento e poeira do Furacão Florence em Myrtle Beach, EUA. in noticias.uol.com.br

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01 setembro 2018

Carta do Papa Francisco ao Povo de Deus

Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele. (I Co 12, 26)
Nos últimos dias, veio a público a denúncia feita pelo Procurador-geral do Estado da Pensilvânia de que, durante mais de 70 anos, teria sido praticado um número considerável de crimes de abuso sexual de menores, por parte de clérigos e pessoas consagradas, factos estes testemunhados com queixas de mais de 1000 vítimas sobreviventes recolhidas por um Grande Júri. 


Esta denúncia acresce a outras que têm vindo a ser conhecidas em diferentes países, como sucedeu recentemente na Austrália, no Chile ou na Irlanda. É de admitir que o processo de desocultação continue e venham a surgir, dentro em breve, novas denúncias em outros países e continentes. Se sofremos com a situação, só temos que nos regozijar com a verdade e a possibilidade de fazer justiça às vítimas.

Os casos já apresentados não podem deixar de nos comover e interpelar, pois estamos perante crimes horrendos de abuso, de poder e de consciência, perpetrados contra vítimas frágeis e indefesas, crimes de violação de direitos humanos, crimes contra a Humanidade(...).
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Créditos de Imagem: Amigos, in revistaecclesia.com

21 agosto 2018

Vergonha e Arrependimento


(...)  sentimos vergonha quando percebemos que o nosso estilo de vida contradisse e contradiz aquilo que proclamamos com a nossa voz. 
Carta do Papa Francisco ao Povo de Deus [ texto em português ]

O Papa Francisco reagiu à crise de abusos sexuais em vários países na carta aos católicos, reafirmando «tolerância zero» e responsabilização de quem cometeu ou ocultou tais crimes
O texto refere o relatório sobre casos de abusos sexuais na Pensilvânia, nos EUA em que novos dados dão a conhecer “aquilo que vivenciaram pelo menos 1000 sobreviventes, vítimas de abuso sexual, de poder e de consciência, nas mãos de sacerdotes por aproximadamente setenta anos”.
O Papa defende que as comunidades católicas devem unir esforços para “erradicar essa cultura da morte”, destacando que as feridas “nunca prescrevem”.
Francisco convida todos os católicos ao “exercício penitencial da oração e do jejum”, com o objetivo de promover a solidariedade e o compromisso com uma cultura do cuidado e o “nunca mais” a qualquer tipo e forma de abuso[Fonte:Agência Ecclesia]

A Comissão Pontifícia para a Protecção de Menores, criada pelo Papa Francisco em 2014 afirmou que se sente “incentivada” pelo apelo à “tolerância zero ao abuso de menores” e “encorajada” com a carta do Papa.