02 novembro 2020

Rezar o vazio por Tolentino Mendonça

Ensina-nos, Senhor, a rezar este vazio. O vazio trazido por um medo que não conhecíamos e que agora parece um inquilino da nossa alma.

O vazio dos espaços em isolamento. O vazio da vida que se faz sentir como que suspensa. O vazio das horas que quem está na solidão conta de forma diferente.

O vazio das incertezas que se acumulam e das quais ainda não falamos. O vazio dos olhos de quem vemos sofrer e o vazio de muitos que sofrem sem que nós os vejamos. O vazio de tudo aquilo que, de um instante ao outro, é procrastinado.

O vazio daquela idosa que passa o dia inteiro com o rosto contra o vidro da janela. O vazio do refugiado que vê a sua esperança negada por um carimbo. O vazio do jovem diante de um futuro que escapa cada vez mais, como um pensamento distante.

O vazio que nos alcança como um aviso de despejo da vida autêntica. O vazio dos encontros e das conversas de que precisaríamos agora. O vazio que os amigos percebem. O vazio das risadas. O vazio de todos os abraços não dados. O vazio da proximidade proibida.

O vazio em que não te vemos.

01 outubro 2020

Espaço para o imprevisível

É outono, o céu está carregado e até os pensamentos parecem cinzentos invadidos pelas memórias de quem nos faz falta…

Vivemos tempos de tristeza e de medo. A pandemia continua a alastras e, sobretudo no período de confinamento, mostrou que todos nos sentimos frágeis impotentes e mais sozinhos. A situação em que se encontram muitos dos nossos idosos é um sinal da decadência do cuidado que contradiz as palavras de circunstância e os discursos vazios.

A degradação ambiental, o prenúncio de outra crise económica… O futuro parece incerto, o nosso e o das gerações mais jovens.

As igrejas poderiam ser oásis de esperança, mas também revelam sinais preocupantes de erosão da participação: nas celebrações, nas iniciativas e no cuidado das comunidades. Nas práticas pastorais gasta-se mais energia para garantir a manutenção do que resta, do que para criar algo novo.

O Papa Francisco trouxe uma lufada de ar fresco e energia, mas a sua reforma encontra oposição dentro da Igreja, que assim aparece dividida por tensões até mesmo marcada por situações escandalosas e destrutivas.

Uma Igreja que se descobre como minoria corre o risco de se fechar em si mesma e de tornar-se autorreferencial – como o Papa Francisco denuncia – preocupada com a própria integridade, atormentada por problemas de funcionamento, focada em questões que nem sempre são da vida real. Talvez por isso Francisco nos comova pelo cansaço que às vezes transparece no seu rosto e pela sensação de solidão que o cerca.

Nada disto é “novo” nem é “normal”. A defesa extenuante do status quo também não pertence à lógica de Deus. Então, como se luta contra o clima depressivo e a apatia, como se resiste à percepção de que “nos falta o ar”? 
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29 setembro 2020

7 de outubro – um ano depois…


O tempo voa e enche-nos de saudades. Tantos factos e vivências surpreendentes nos aconteceram… E não nos foi possível partilhar com ela de viva voz! 

 Assinalaremos o primeiro ano do falecimento da fundadora da Fundação Betânia, Manuela Silva, com a celebração da eucaristia no domingo, dia 11 de outubro, na igreja do convento dos Dominicanos, às 12:00 Horas. 

 Alertamos para a necessidade de chegar cedo devido às medidas de contingência que obrigam ao distanciamento físico e à limitação de lugares. 

 Junte-se a esta iniciativa da Fundação Betânia e da Rede Cuidar da Casa Comum.

01 setembro 2020

“Deixar os destroços, encontrar os tesouros” por Giuliano Zanchi


Ninguém conseguiria imaginar que viveríamos meses como os que acabamos de passar. Agora fazem parte da nossa história sem a qual não poderíamos falar do presente. Houve quem comparasse esta epidemia a uma “maré” que com a sua onda inunda tudo e, quando recua, deixa tesouros espalhados e também vários destroços na praia. 
 Para olhar os tesouros que emergiram e para nos livrarmos dos destroços, precisaremos de “sabedoria”, a que todos devemos aspirar, ainda que, para muitos, permaneça a tentação de fingir que nada aconteceu e seguir em frente sem preocupações. A ideia do “regresso à normalidade” é uma aspiração legítima, se o objetivo for escapar às garras da emergência e aos comportamentos forçados, mas a pretensão de retomar tudo exatamente como antes, ignorando o momento de “revelação” no qual estivemos imersos seria revelador de uma grande ingenuidade. 
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01 julho 2020

Revitalizar as raízes da Esperança



As generosas utopias que fizeram acreditar na superação de problemas graves, tais como a fome no mundo, as guerras em larga escala ou as doenças endémicas, geraram uma vaga de optimismo que durou décadas. Foram muitos aqueles que acreditaram num mundo novo, em rápida gestação e com nascimento anunciado. O próprio Concílio Vaticano II reflectiu em parte este optimismo generalizado que atingiu o seu auge nas décadas de sessenta e setenta, mas que começou a desintegrar-se na parte final do pretérito milénio.
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É sinuoso e moroso o caminho da nossa conversão interior. Não nos admiremos que também seja demasiado lenta a transformação do mundo. Toda a nossa vida não basta para o transformar, pois chegaremos à nossa hora com a consciência de ter deixado muitas tarefas incompletas. Mas isso, em vez de constituir motivo de desânimo, deverá afervorar o nosso sentido de missão, como nos exorta o Apocalipse, escrito justamente para ajudar os crentes a alimentar a esperança em períodos difíceis.
Diz o povo que a Esperança é a última coisa a morrer. Sendo a última a morrer, é também a que alimenta as demais. Até por isso, deverá ser a primeira a ser vivida e a ser testemunhada acima de qualquer outra. Mas nunca o será, se nos fecharmos em nós mesmos, numa espiritualidade sem próximo e sem história.

Manuel António Ribeiro 
– Porto. 2007