14 abril 2018

Gaudete et Exsultate
Um chamamento à santidade no mundo actual

Com este título acaba de ser difundida uma Exortação apostólica do papa Francisco que deve ser escutada e dada a conhecer.

É uma mensagem de interpelação pessoal, dirigida aos cristãos, quaisquer que sejam as circunstâncias das suas vidas, no entendimento de que, pelo baptismo, todos, sem excepção, são chamados à santidade.

Logo de início Francisco explicita o seu propósito. O meu objetivo é humilde: fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades, porque o Senhor escolheu cada um de nós «para ser santo e irrepreensível na sua presença, no amor» (cf. Ef 1,4)
 
Mais adiante acrescenta, a partir da sua própria visão contemplativa, sempre atenta à realidade da vida humana: Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da «classe média da santidade».

O tom pessoal e, quase coloquial, de um pai ou de uma mãe em conversa com os seus filhos e filhas, não retira a importância que deve ser conferida a outras dimensões do texto: a sua fundamentação teológica e bíblica; a denúncia das falsificações, designadamente o gnosticismo e o pelagianismo; a análise da realidade do mundo actual e dos desafios e riscos a enfrentar; o alcance pastoral; a necessidade do discernimento; o lugar do silêncio, da oração e do serviço numa vida de santidade.

Em suma, direi que esta exortação apostólica oferece a cada pessoa não só um interpelador chamamento à santidade mas também um guia para lhe corresponder nas circunstâncias concretas do seu estado e condição de vida. 

01 abril 2018

A esperança é a arte de ver mais longe

Historicamente, a espera de uma saída para o Mundo nunca deixou de guiar, como uma chama, os progressos da nossa Fé. Os israelitas foram “expectantes” perpétuos; assim como os primeiros cristãos. - Teilhard de Chardin
.
Everest - D. Prudek
De muitos e variados quadrantes sopram ventos de mudança na cena mundial que, com justificadas razões, não nos deixam em tranquilidade quanto ao futuro da Humanidade e à preservação desse bem inestimável que é a paz.
Estou a pensar, entre outras situações, nas tensões que, perigosamente, se vêm acumulando entre as grandes potências mundiais, a propósito da guerra na Síria, dos actos bélicos desencadeados pela Turquia contra as minorias curdas, da recente descoberta de uso de químicos letais de origem russa no Reino Unido, para não falar da informação e contra-informação com origem em serviços secretos de um e outro lado do Atlântico.
Estamos perante desafios tão sérios que quase apagam - ou fazem esquecer - as tragédias que, diariamente, acontecem com o afluxo de refugiados e migrantes que chegam a território europeu em situação de desespero e luta pela sua própria sobrevivência e as condições desumanas em que são obrigados a permanecer, meses e anos, nos campos onde são acolhidos; ou, ainda, as repetidas calamidades ditas naturais, na realidade provocadas por sérias alterações climáticas, por sua vez, correlacionadas com o paradigma económico vigente, ambientalmente pernicioso e insustentável. (...)
[ ler mais ]

06 março 2018

Interrogar-se sobre si próprio

O homem é o ser que se interroga sobre si próprio, perguntando: “Quem é o homem?” - Luciano Manicardi
.
David - Miguel Ângelo.1504
Começo este escrito com uma extensa citação extraída da introdução de um livro de Luciano Manicardi, recentemente editado em português e intitulado Memória do limite. A condição humana na sociedade pós-mortal (Paulinas, 2017).
O autor, monge e prior do Mosteiro de Bose, reconhece a imperiosa necessidade de nos interrogarmos sobre questões nucleadoras do nosso modo de estar e de viver, questões que ganham hoje particular acuidade no nosso mundo ocidental em que a ciência e a tecnologia parecem abrir caminho a uma sociedade pós-mortal e onde, pretensamente, se esquece a condição criatural dos humanos.
Eis a citação:
O que é o humano? O que nos torna humanos? O que é um corpo humano? Como viver e como morrer “humanamente”? Estas perguntas ressoam com uma força particular num tempo que, pelo menos no Ocidente rico e tecnologicamente avançado, conhece a implementação de um verdadeiro arsenal de tecnologias biomédicas aplicado ao corpo humano que tem vindo a modificar radicalmente a sexualidade e a procriação, o nascimento, o envelhecimento e a morte do homem. São perguntas que podemos temer porque revelam um futuro desconhecido e que nos pode assustar. Todavia, ao mesmo tempo que declaram aberta aquela fase cultural que alguns colocam sob o signo do pós-humano, estas interrogações fazem-se apenas eco da antiga afirmação platónica segundo a qual uma vida que não se interrogue nem busque não é digna de ser vivida. O homem é o ser que se interroga sobre si próprio, perguntando: “Quem é o homem?”.
A resposta que possamos encontrar para estas interrogações marcará, decisivamente, o modo como conduzimos as nossas vidas … (...)

01 fevereiro 2018

Os ídolos são como espantalhos num campo de pepinos

As nossas cidades capitalistas só de consumo são cada vez mais semelhantes a Babilónia a e Nínive e a transmutação idolátrica das antigas fés é cada dia mais evidente.- Luigino Bruni
.
Totem - Woodcarvingstanleypark,
(...) Há cerca de 400 anos, Francisco de Sales confessava: O meu passado já não me preocupa: pertence à misericórdia divina. O meu futuro também não me preocupa: pertence à providência divina. O que me preocupa é o agora, aqui e hoje: ele pertence à graça divina e ao empenho da minha boa vontade.
Temos muitas e complexas razões para nos preocuparmos com o aqui e o agora. De entre elas, destaco o que vem sucedendo à nossa casa comum, para usar a designação do papa Francisco na encíclica Laudato Si’ acerca dos males que afligem o Planeta Terra e com a sã convivialidade da Humanidade consigo mesma e com os demais seres que nele habitam.
Na origem destes males estão os muitos ídolos erguidos pela cultura hodierna e sustentados por uma economia que se foi distanciando - ou mesmo divorciando - do seu fim de responder às necessidades da sustentação e do desenvolvimento da Vida e, em vez de prosseguir esse objectivo primordial, para todos, vem servindo - e até fabricando - os seus próprios ídolos: lucro máximo, crescimento ilimitado, produtividade crescente, competitividade sem regras…
 (...)

05 janeiro 2018

Cuidar da Casa Comum
- A Igreja ao serviço da ecologia integral

Cuidar da Casa Comum é uma iniciativa de uma Rede de instituições, organizações, obras, movimentos da igreja católica e de outras igrejas cristãs, bem como pessoas a título individual.
Propõe-se:
  • Aprofundar e difundir a encíclica Laudato Si’ sobre o cuidado da casa comum, nomeadamente no âmbito das respectivas instituições, organizações, obras e movimentos.
  • Acompanhar, no espaço eclesial, as questões ecológicas de âmbito nacional e mundial, evidenciando as suas causas e consequências e equacionando-as à luz da encíclica Laudato Si’, de modo a promover a tomada de consciência colectiva acerca da sua relevância e urgência.
  • Promover nas comunidades cristãs e nos respectivos espaços (paróquias, escolas, obras e movimentos) uma efectiva conversão ecológica e sugerir caminhos de actuação concreta com vista a uma ecologia integral.
  • Proporcionar instrumentos de análise que permitam pensar o futuro do Planeta e da sociedade global de que somos parte.
  • Aprofundar e difundir a teologia da Criação.
  • Incentivar a celebração em comum do Dia da Criação.
Para melhor conhecimento visite casacomum.pt
A Fundação Betânia está na origem desta iniciativa, é um dos membros fundadores da Rede e integra a Comissão Executiva.

01 janeiro 2018

Ao encontro da essência do ser humano

Os momentos de crise, de mudança, de transformação não só das relações sociais, mas antes de tudo da pessoa e da sua identidade mais profunda, reclamam, inevitavelmente, a reflexão sobre a interioridade, sobre a essência íntima do ser humano.- Papa Francisco
.
Papa Francisco
Mais tarde ou mais cedo todos somos confrontados com perguntas de abismo sem fundo. Porque é que há algo e não nada? Qual é o sentido da minha vida, da existência de tudo? Qual é o fundamento último do que há? O seu sentido último?
É com estas palavras que Anselmo Borges começa a apresentação do seu livro intitulado Francisco. Desafios à Igreja e ao Mundo, recentemente publicado pela editora Gradiva. Escolho-as para início deste meu primeiro escrito de um novo ano e deixo um convite à leitura deste livro.
É oportuno relembrar e dar centralidade às perguntas que, sendo de sempre, porque constitutivas do ser humano, ganham relevância em momentos especiais, que levam a marca dos começos: uma nova relação, um novo trabalho, uma nova morada, etc. O começo de um novo ano civil pode bem ser um bom pretexto para um momento de interioridade, aberto à escuta do nosso interior e às suas perguntas essenciais.
Dizer que 2018 é apenas o virar de página de um calendário é subestimar o valor do simbólico, esquecer ou abafar o convite que o começo de um novo ano nos faz a que revisitemos o sentido profundo de existirmos, incluindo, porque inseparável do nosso existir, a sua dimensão relacional com as coisas, os outros, o planeta, a transcendência nos seus muitos nomes. (...)