22 setembro 2007

O que é que nos faz correr?

Manuela Silva
Setembro - 2007


Assim, a fonte cria-se da sede
E do salto.
A fonte nasce continuamente do próprio pulso.

António Ramos Rosa, Um só entusiasmo, in Antologia poética, 2001


Para muitas pessoas, Setembro é, mais do que Janeiro, o começo de um novo ano. As férias interromperam (saudavelmente, espera-se!) as rotinas dos lugares e das actividades e até das relações interpessoais e deixaram que emergissem, no nosso interior, lugares de criatividade e beleza, paisagens e sorrisos, palavras e silêncios, desejos e sonhos. Conhecemos novos rostos, deparamo-nos com ideias e visões do mundo diversas, enriquecemo-nos com a vida que presenciamos à nossa volta e demos tempo a contemplá-la. Escutamos o sopro do Espírito atravessando a suave brisa da tarde e acolhemos a força dinâmica da Palavra.

Esperam-nos, agora, novos projectos ou desenvolvimentos futuros naqueles que deixamos incompletos ou apenas esboçados e merecem, de novo, a nossa atenção e engenho. Como compaginá-los com a fonte onde ousamos beber?

Re-encontraremos – bem o sabemos - os ritmos stressantes da cidade, o ruído de uma civilização trepidante que faz do lucro e da produtividade os seus ídolos e a eles sacrifica energia e tempo, secando fontes de interioridade e de realização e felicidade humana, anestesiando a sede de infinito que, incontornavelmente, nos habita. Porém, antes de nos deixarmos arrastar pela corrente de um quotidiano veloz, não deixemos passar o momento oportuno de fazermos a nós próprias/os as perguntas simples da existência. Por exemplo, esta: o que é que nos faz correr?

Em Agosto, em Betânia, partilhamos um tempo de reflexão e experiência de vida que quis ser “o ouvido do vento”, escuta do espírito que alimenta a nossa interioridade e molda a consciência que temos de nós e do mundo em que inscrevemos a nossa existência terrena e o nosso devir em construção. No decurso dos próximos meses, voltaremos nestes escritos às temáticas “ao gosto de Betânia” (vida simples, escuta e contemplação, o cuidado das relações com os outros, o lugar para a beleza; o compromisso responsável com a transformação do mundo), mas, neste limiar de um novo ano social, deixo um único convite, que é também um desafio: encontremos, ainda, um momento de pausa para tomarmos consciência dos objectivos essenciais e das razões que motivam as nossas opções de vida e de trabalho e tenhamos a coragem de harmonizar a nossa voz interior com aquilo que fazemos e o uso que damos aos nossos talentos e competências. Afinal, o que é que nos faz correr?

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