03 dezembro 2013

Vencer a Indiferença pela Atenção e a Solidariedade

A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolas de sabão: estas são bonitas mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório.
Papa Francisco, Lampedusa 2013
Dois acontecimentos recentes merecem a nossa reflexão para além dos relatos frios dos noticiários:
- o desastre de Lampedusa de que resultaram centenas de mortos, gente pobre em busca de uma terra onde pudessem viver (nos últimos 15 anos mais de 20 mil pessoas perderam a vida em Lampedusa);
- a destruição provocada pelo tufão Hayan nas Filipinas cuja passagem deixou um rasto de destruição e de morte de mais de quatro mil pessoas.

O que sucedeu em Lampedusa é um grito dos pobres, a somar-se a tantos outros, o grito das vítimas da fome e da falta de oportunidades para encontrarem nos seus territórios meios de sobrevivência a que acrescem as vítimas de perseguições raciais, religiosas ou políticas que põem em risco permanente as suas vidas nos respectivos países de origem.

A destruição e a morte provocadas pelo tufão Hayan é o grito da Terra que vem sendo sujeita às ameaças de um modelo de sociedade, de produção e de consumo que, persistentemente, vem pondo em causa o equilíbrio ecológico, em nome do dinheiro.

Perante situações, como estas, de gravidade extrema, os povos e os seus governantes reagem com excessiva complacência, como se tais situações lhes não dissessem respeito. O Papa Francisco alerta para o facto de que se vem implementando no mundo contemporâneo uma cultura da indiferença que leva cada um, indivíduos e povos, a olharem apenas para os seus interesses imediatos e egoístas, dispensando-se de olhar o outro nas suas necessidades e legítimas aspirações e de adoptar uma visão de solidariedade efectiva que remonte às causas das calamidades e as remova.

A este propósito, o Papa Francisco acrescenta: Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!

Nada mais contrário à mensagem bíblica e à pergunta que sempre ressoa através dos séculos: Caim, que fizeste do teu irmão?
L'Annonciation. © Anto Carte - Corbis [DC]

Nada mais contrário ao testemunho e à mensagem de Jesus de Nazaré, que nos convida a construir um reino de justiça, de solidariedade e de paz e a formar uma comunidade de irmãos e irmãs, baseada no amor recíproco e universal.

Nesta cultura da globalização da indiferença, o outro tornou-se alguém sem rosto e sem nome, um ser transparente, entregue à sua sorte e ao seu destino. O sofrimento do outro não comove, porque entre mim e o outro caiu uma pesada cortina de indiferença, tecida pelas mil e uma ilusões (as bolas de sabão) que alimentam uma visão egoísta, hedonista e superconsumista, e fundamentam o modelo societal e de organização da economia e da sociedade dominante.

Como contrariar esta cultura da indiferença que leva à morte das pessoas e dos povos e põe em risco a própria Humanidade e a sua sobrevivência como espécie no Planeta? Através da prática deliberada da virtude da atenção ao que sucede à nossa volta, uma atenção ancorada numa consciência lúcida e esclarecida, que não se detém nas manifestações, mas penetra as causas, das várias situações. Uma atenção que não se confunde com a do mero espectador/a, mas é própria de um sujeito interveniente, que se reconhece como parte de um nós, e por isso intrinsecamente solidário com o presente e com o futuro.

Celebramos proximamente a festa litúrgica do nascimento de Jesus de Nazaré, o mistério de um Deus que se faz humano para melhor partilhar a nossa condição humana e tornar possível a fraternidade, o amor e a paz. Não nos deixemos iludir pelas “bolas de sabão” da futilidade, do luxo, do efémero; façamos, antes, o propósito de, como discípulos e discípulas de Cristo, nos comprometermos no combate à cultura da indiferença, criando uma corrente que valorize a atenção ao outro e a solidariedade, como traves-mestras de um modo habitual de ser e de viver.

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Maria do Céu