01 setembro 2009

Escutar para Ver

Vivemos imersos numa cultura que olha, que ouve, que fala, que valoriza a muita informação e o conhecimento superficial da última hora.

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Quando falo de escuta, quero referir-me, em primeiro lugar, à atitude que preside ao encontro entre duas ou mais pessoas e à conversa que entre elas se estabelece.

Tem-se vindo a perder a capacidade corrente de escuta no seio dos pequenos grupos e das famílias, a tal ponto que, hoje, em múltiplas circunstâncias, se torna necessário recorrer a profissionais de “escuta” para compensar um tal défice.

Escutar não é ouvir e muitas vezes o que verificamos à nossa volta é que se multiplicam as palavras num imenso frenesim de as fazer ouvir, mas sem cuidar de que aquele ou aquela para quem se fala tenha oportunidade de reagir, de expor as suas próprias ideias, de soltar os seus sentimentos, de ter tempo para interagir e assimilar criticamente o que é dito.

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Lembrar a importância da escuta adquire particular acuidade no período eleitoral em que nos encontramos. Como seriam muito mais fecundos os debates político-partidários ou mesmo as meras conversas e comentários acerca dos diferentes projectos políticos, se todos cuidássemos de praticar uma escuta atenta, livre de preconceitos e de falsas verdades e nos orientássemos por critérios de bem comum.

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[ Texto integral ]

Imagem: Giant Ear and Man Listening - James Endicott, 2008

3 comentários:

  1. Alguem disse há tempos neste espaço que o Escrito do Mês acertava sempre na "mouche".E é bem certo. O tema deste mês tem toda a actualidade.
    O que me dá que pensar é imaginar as razões que levam a esta situação tão anormal que é a de falar sem a preocupação de ser ouvido.Porquê assim agora? Seria assim no passado?
    Os chamados meios de comunicação(?)
    social, rádio, televisão, informática, mais não são do que
    informação sem retorno. A relação/ comunicação emissor-receptor, que eu prefiro dizer enunciante-captante pelo conceito mais dinâmico que tem,não se estabelece, fica a meio caminho, sem retorno.
    Não será esta a causa única; mas será pelo menos um factor facilitador.
    Porem, não se deve deixar de notar que nos pequenos grupos sociais, familiars ou de amizade, há muitas vezes conversas sem interesse, palavras que bem podiam ser caladas, inúteis, que não despertam minimamente a curiosidade do interlocutor.
    E, neste momento, vem-me à ideia parte de uma homilia de S. Gregório Magno, onde ele diz que "se esforça por se impor o domínio da língua,... guardar a língua de conversas inúteis, para poder manter o espírito em atitude de oração". Confessa tambem que lhe acontece muitas vezes que "ouço pacientemente as conversas inúteis. Mas porque tambem sou fraco, deixo-me atrair um pouco por essas palavras ociosas e começo a falar de bom grado sobre aquilo que principiara a ouvir contrariado e acabo por ficar com gosto, onde antes me repugnava cair..."
    Não será isto que nos acontece tambem a nós?
    Aqui fica o desafio lançado por S. Alberto Magno do domínio da ´língua para poder manter o espírito em atitude de oração.M.A.

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  2. Olá Maria Amélia!
    Muito obrigada pelo seu comentário.

    Quanto ao papel dos Meios de Comunicação Social e às Tecnologias de Informação e Comunicação nesta dinâmica, parece-me que devemos considerar um factor determinante que é a liberdade de cada pessoa poder
    a)
    escolher se quer ver/ouvir/ler e o que quer ver/ouvir/ler;
    b)
    hoje esses meios são cada vez mais interactivos, portanto há possibilidade de retorno.

    Contudo a Liberdade anda de mão dada com a Educação e num universo de ignorância é fácil dominar as pessoas pela manipulação da informação.

    Esta questão da Liberdade de escolha é muito complexa, porém acresce o ruído e a futilidade na comunicação mesmo entre as pessoas que, à partida, estariam melhor colocadas para escolher em Liberdade.

    Assim sendo, impõe-se reflectir também sobre outro aspecto desta questão:
    a qualidade da relação que cada pessoa pretende estabelecer com o Outro (os Outros)
    Não bastam as tecnologias sofisticadas, nem os ambientes fantásticos. É preciso que no coração de cada pessoa se mantenha um lugar especial para escutar o Outro (os Outros).

    O Amor pode até superar o ruído, mas não sobrevive ao olhar distraído, nem à futilidade dos gestos...

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  3. Os comentários da Maria Amélia e da Maria do Céu vieram enriquecer – e muito – o escrito de Setembro, desenvolvendo e concretizando a ideia principal de que para ver é fundamental uma atitude de “escuta”. Esta parte da atenção à realidade de si mesmo, dos outros, do mundo à nossa volta. Escuta que é abertura à transformação e à criação de sinergias construtivas e mudanças. Agradeço, pois, estes contributos.
    Também de uma amiga residente em Hong Kong me chegou um comentário que vem confirmar como esta temática da necessidade de uma prática de escuta atravessa hoje fronteiras e culturas. Referia-se a minha amiga a uma conferência recente de Father Laurence naquela cidade em que aquele mestre espiritual sublinhou que o stress, tão frequente nos nossos dias, é causado pelo facto de o nosso centro vital não estar conectado com a nossa trajectória de vida.
    Ora, a escuta de nós próprios é uma prática indispensável para atingir a unidade do ser e a paz.
    Para os cristãos, esta prática de escuta é abertura ao sopro do Espírito do Senhor.

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Maria do Céu