01 abril 2019

Um novo dinamismo de mudança

A conversão é a inversão da rota do navio que, se continua assim, vai direita às rochas. Não serve fazer a conta dos bons e dos maus, é preciso reconhecer que é todo um mundo que tem de mudar de direção: nas relações, na política, na economia, na ecologia. (Ermes Ronchi)
Diante de alguma calamidade natural, acto de terrorismo, doença grave, morte prematura, sempre surge a interrogação: Onde está Deus? Esqueceu as suas criaturas ou está, porventura, a castigar os seus desmandos? Quer manifestar a sua cólera ou deixar um apelo à mudança de direcção, um convite à conversão?
No seu tempo, Jesus teve de enfrentar interrogações semelhantes dos seus contemporâneos a propósito de uns mortos que ficaram soterrados pelo desabar de uma torre em Siloé (Lc 1, 1-9). A resposta de Jesus é clara e pode resumir-se assim: não se trata de culpa ou de castigo; não é Deus que provoca as calamidades naturais, os actos de violência e de terrorismo; não se lhe podem atribuir os magnos desequilíbrios ecológicos com que estamos confrontados; tão pouco Deus muda de humor, porque é eterno o seu Amor.
Navio Escola Sagres. Inês Aparício. 2018
Em outra passagem do evangelho, quando é apresentado a Jesus um cego de nascença, aqueles que o trazem parecem estar preocupados em saber de quem é a culpa, do próprio ou dos seus progenitores, mas, também neste caso, Jesus descarta a pergunta e recusa que o acento tónico seja posto na definição de quem é o culpado, pois o que importa é que o cego passe a ver, seja curado do seu mal e plenamente reintegrado na comunidade. 

01 março 2019

Greta Thunberg – a voz dos pequenos

Aprendi que nunca se é demasiado pequeno para fazer a diferença (Greta Thunberg)
Greta Thunberg. Michael Campanella
Apresentou-se como uma adolescente de 15 anos (vinda de um pequeno país, a Suécia) na última cimeira do clima realizada em Katowice na Polónia, no passado mês de dezembro. Numa curta, mas vigorosa mensagem, disse ao que vinha: Falar em nome de Climate Justice Now (Justiça climática já!). 
Faltou à escola para poder estar naquela magna reunião e veio de comboio - e não de avião - por coerência com a sua causa. Admitiu o desconforto de ter de enfrentar um público de líderes mundiais que, por ventura, dizem defender uma economia verde, mas não ousam enfrentar o mito do crescimento ilimitado e resistem à implementação das mudanças indispensáveis e urgentes para alcançar a sustentabilidade, porque temem que tais decisões serão consideradas impopulares. 
“Vocês só falam em avançar com as vossas más ideias que nos conduziram a esta calamidade, mesmo quando a única coisa acertada seria meter o travão de emergência a fundo”.

01 fevereiro 2019

O quotidiano lugar de revelação

O Senhor está realmente neste lugar e eu não o sabia! (Gen 28,16)
Sino de Betânia. mcst 2014

Na sua última conferência, realizada em Lisboa em 5 Outubro passado, Luciano Manicardi, prior do Mosteiro de Bose (Itália) lançava esta interrogação: “se até numa colherinha de café o sol se reflete”, devermos perguntar-nos: existem coisas “banais”?
Toda a conferência foi uma interpelação dirigida ao modo como olhamos o nosso quotidiano, nas suas múltiplas vertentes e como o vivemos na relação que temos com as coisas que usamos, as compras que fazemos e as lojas que escolhemos, as tarefas que desempenhamos, as profissões que exercemos, os encontros que temos e as relações que no dia-a-dia vamos tecendo, os espaços que habitamos, os transportes a que recorremos…
Aquilo com que lidamos no nosso quotidiano diz muito de nós, das nossas opções pessoais e do nosso sentido de vida e, simultaneamente, vai deixando, em cada pessoa, marcas existenciais. Assim sendo, não podemos descurar a sua importância, pois, como diz Luciano Manicardi: elas (as “coisas”) são o diálogo ininterrupto que os sentidos estabelecem com o mundo e, através dos quais, o mundo toca a nossa alma. Deste modo, o quotidiano tem, assim, uma valência antropológica mas, também, espiritual. (...)

01 janeiro 2019

Todos somos responsáveis pelo bem comum

As recentes manifestações de contestação social (sejam elas as greves simultâneas por parte de distintos sectores socioprofissionais que se vêm sucedendo em Portugal ou os movimentos inorgânicos, como foram os “coletes amarelos” nascidos em França e, posteriormente, replicados em outras geografias, incluindo o nosso País) merecem reflexão, não só pelos seus efeitos, mas também pelas causas que estão na sua génese e propalação e, sobretudo, porque é urgente ir ao encontro destas vozes, saber escutá-las e dar-lhes resposta.
Água-um bem comum ameaçado.[link]
Não é por acaso que tais manifestações surgem em países com níveis de riqueza e de prosperidade elevados, civilizações avançadas no conhecimento científico e tecnológico e no reconhecimento de direitos humanos fundamentais, espaços de liberdade e garantidos direitos constitucionais de igualdade de oportunidades para todos. Por outro lado, dir-se-ia que, em termos comparativos, tanto no espaço como no tempo, a realidade, que é objecto de contestação, apresenta, no entanto, uma evolução positiva. Com efeito, é inegável que vive-se melhor hoje do que há 30 ou 50 anos e a Europa, com o seu modo de vida, continua a ser um polo de atracção para refugiados e migrantes de outros continentes.
Porquê, então, esta onda de contestação social? (...)  

01 dezembro 2018

Escutar. Responder. Libertar.

Este pobre clama e o Senhor o escuta (Sal 34, 7). Façamos também nossas estas palavras do Salmista, quando nos vemos confrontados com as mais variadas condições de sofrimento e marginalização em que vivem tantos irmãos e irmãs, que nos habituamos a designar com o termo genérico de “pobres”. (Papa Francisco)
La gente pobre. Jazmin Ruiz. 2015
É com estas palavras que o Papa Francisco começa a sua Mensagem para a celebração do dia Mundial dos pobres de 2018. Retomo-as, no início do novo ciclo litúrgico, como inspiração para este tempo de advento e da quadra natalícia que se avizinha.
Mergulhados e imbuídos, que estamos, na cultura dominante, corremos o risco de pôr entre parêntesis critérios evangélicos e ceder à tentação das propostas que todos os dias nos chegam pelos media e pelo marketing e fazer desta época o ápice do consumismo e do negócio, esquecendo os mais frágeis e descurando impactos sobre o cuidado a ter com a nossa casa comum. 
Uma redobrada atenção aos mais pobres pode servir-nos de antídoto ao consumismo, ao desperdício e à cultura do descarte e abrir a nossa mente e o nosso coração aos valores da inclusão, da solidariedade e da fraternidade, em consonância com o evangelho.
Na mensagem de Francisco, encontramos, em espelho com a tradição bíblica, aquilo que deve ser a relação dos crentes com os mais frágeis e marginalizados, incluindo o Planeta em que habitamos.
Francisco destaca três verbos que exprimem a relação do pobre com Deus. São palavras-chave que devemos ter em conta: escutar, responder, libertar. (...) 

01 novembro 2018

Espanto e agir consequente

Espanta-te ainda, espanta-te mais uma vez.
(José Tolentino Mendonça, Elogio da sede, 2018)

Foi com as palavras desta epígrafe que Tolentino Mendonça deu início à sua primeira pregação dos exercícios espirituais dirigidos ao papa, cardeais e demais membros da Cúria, na quaresma deste ano. Subjacente a este inusitado convite-desafio, estava o texto do evangelho de João, a narrativa do encontro de Jesus com a samaritana à beira do poço de Jacob e as suas intrigantes palavras “dá-me de beber”. Ele homem judeu e ela mulher samaritana…
Espanta-te ainda, espanta-te mais uma vez, são palavras que nos interpelam e desafiam. A nós que, tal como os seus primeiros destinatários, a dada altura da vida, parece que já vimos tudo, já vivemos e sabemos tudo, e olhamos para a realidade protegidos por aquilo que julgamos ser uma distância de um acumulado saber.
O espanto nasce da atenção que prestamos à vida nas suas múltiplas facetas, no plano pessoal e na relação com os demais seres, no espaço da proximidade e vizinhança ou na lonjura do mundo e do cosmos, no avanço do conhecimento e da tecnologia ou na política. Conjuga-se com a capacidade de surpresa e admiração, com sentimentos de medo ou de júbilo. 
Por outro lado, o espanto suscita curiosidade e interrogação (o filosofar assenta alicerces no espanto!), mas ficará em défice de completude se não nos move ao discernimento contínuo e ao agir consequente. (...)
Créditos de imagem:
Pope Paul VI and Archbishop Oscar Romero pose together in an undated file photo, in Photo courtesy of Oficina de Canonizacion de Mons. Oscar Romero.

03 outubro 2018

Os jovens, a fé e o discernimento vocacional

Começa hoje, em Roma, o Sínodo dos Bispos convocado pelo papa Francisco para debater este tema, de indiscutível relevância para o futuro das nossas sociedades e da própria Igreja.

Ao longo da preparação sucederam-se os apelos de Francisco. Alguém (M. Michela Nicolais) procurou sistematizar estes desafios num conjunto de frases-chave que, hoje, gosto de recordar:
  • Espero que façam barulho
  • Não olhem a vida da varanda
  • Não beber a fé espremida
  • Não aos jovens de museu, sim aos jovens santos
  • Viver, em vez de ir vivendo
  • Sonhai grandes coisas
  • Aprendamos a chorar.
  • Sede castos, sede castos.
  • É preciso andar contracorrente
  • Quem não arrisca não caminha
Mais recentemente, o papa octogenário insistia: É preciso coragem para dar um salto para a frente, um salto arriscado e ousado para, como Jesus, sonhar e realizar o Reino de Deus, comprometendo-se com uma humanidade mais fraterna (Agosto 2018).

01 outubro 2018

A urgência de uma mística de olhos abertos e coração compassivo

(…) tomamos consciência da necessidade e urgência de uma mística de olhos abertos, coração solidário e amor politicamente eficaz, de uma mística que leve a escutar o grito da Terra, o clamor de milhões de pessoas famintas de pão e de direitos humanos e lutar por outro mundo possível.  (Mensagem final do 38º Congresso de Teologia, Madrid, 9 Setembro 2018)
Nos últimos dias a comunicação social tem permitido que acompanhemos em tempo real as grandes calamidades que têm assolado o nosso planeta em vastas regiões do Mundo e evidenciado as suas consequências dramáticas, visíveis no número de vítimas, deslocações forçadas de milhões de pessoas, perdas de bens materiais irreparáveis.
furacao Florence 2018Talvez não inteiramente, mas seguramente em parte, a violência destes fenómenos naturais e a sua maior frequência vêm alertar-nos para as alterações climáticas em curso e para as suas causas e, por esta via, evidenciar que precisamos de agir com determinação, responsabilizando por isso os diferentes actores políticos e instituições.
Não basta, porém, acumular conhecimento e compreensão destes fenómenos ou multiplicar iniciativas de alto nível para firmar acordos internacionais para minimizar os seus impactos; a experiência vem mostrando que é fundamental que mudem as atitudes e os comportamentos da Humanidade, nomeadamente no que se refere à cultura, à economia, à solidariedade e que se crie e generalize uma mística de “cuidado com a casa comum”.
Porquê convocar a mística para enfrentar alterações climáticas e demais crises ecológicas? E com que contornos?  (...)
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Imagem:14. set. 2018 - Russ Lewis protege os olhos de rajadas de vento e poeira do Furacão Florence em Myrtle Beach, EUA. in noticias.uol.com.br

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01 setembro 2018

Carta do Papa Francisco ao Povo de Deus

Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele. (I Co 12, 26)
Nos últimos dias, veio a público a denúncia feita pelo Procurador-geral do Estado da Pensilvânia de que, durante mais de 70 anos, teria sido praticado um número considerável de crimes de abuso sexual de menores, por parte de clérigos e pessoas consagradas, factos estes testemunhados com queixas de mais de 1000 vítimas sobreviventes recolhidas por um Grande Júri. 


Esta denúncia acresce a outras que têm vindo a ser conhecidas em diferentes países, como sucedeu recentemente na Austrália, no Chile ou na Irlanda. É de admitir que o processo de desocultação continue e venham a surgir, dentro em breve, novas denúncias em outros países e continentes. Se sofremos com a situação, só temos que nos regozijar com a verdade e a possibilidade de fazer justiça às vítimas.

Os casos já apresentados não podem deixar de nos comover e interpelar, pois estamos perante crimes horrendos de abuso, de poder e de consciência, perpetrados contra vítimas frágeis e indefesas, crimes de violação de direitos humanos, crimes contra a Humanidade(...).
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Créditos de Imagem: Amigos, in revistaecclesia.com

21 agosto 2018

Vergonha e Arrependimento


(...)  sentimos vergonha quando percebemos que o nosso estilo de vida contradisse e contradiz aquilo que proclamamos com a nossa voz. 
Carta do Papa Francisco ao Povo de Deus [ texto em português ]

O Papa Francisco reagiu à crise de abusos sexuais em vários países na carta aos católicos, reafirmando «tolerância zero» e responsabilização de quem cometeu ou ocultou tais crimes
O texto refere o relatório sobre casos de abusos sexuais na Pensilvânia, nos EUA em que novos dados dão a conhecer “aquilo que vivenciaram pelo menos 1000 sobreviventes, vítimas de abuso sexual, de poder e de consciência, nas mãos de sacerdotes por aproximadamente setenta anos”.
O Papa defende que as comunidades católicas devem unir esforços para “erradicar essa cultura da morte”, destacando que as feridas “nunca prescrevem”.
Francisco convida todos os católicos ao “exercício penitencial da oração e do jejum”, com o objetivo de promover a solidariedade e o compromisso com uma cultura do cuidado e o “nunca mais” a qualquer tipo e forma de abuso[Fonte:Agência Ecclesia]

A Comissão Pontifícia para a Protecção de Menores, criada pelo Papa Francisco em 2014 afirmou que se sente “incentivada” pelo apelo à “tolerância zero ao abuso de menores” e “encorajada” com a carta do Papa. 

20 agosto 2018

Espiritualidade e Ciência

No intervalo entre os festivais de verão podemos refrescar a procura da felicidade, da sabedoria e da verdade...
Aqui ficam duas entrevistas proporcionadas por um só protagonista: Luís Portela, Chairman da Bial.
Luís Portela-foto LucíliaMonteiro-Visão
A Grande Entrevista link ] (48:51m) ao jornalista Vítor Gonçalves, na RTP, no dia 15 de Agosto de 2018 sobre o seu novo livro, a sua vida, a mente humana, espiritualidade e ciência...
E a entrevista à jornalista Clara Soares publicada na revista Visão, a propósito do seu livro Da Ciência ao Amor para os “leitores que não se contentam com o materialismo das sociedades desenvolvidas e querem ir mais longe no conhecimento de si”.  [ link ]

01 julho 2018

Da cultura do excesso à mística da responsabilidade pessoal e colectiva

Plastic waste washed up on a beach - Daniela Dirscherl
Age de modo a que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra. (Hans Jonas, O princípio da responsabilidade)
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Todas as épocas têm as suas glórias e as suas patologias próprias.
Com os êxitos e as glórias, os humanos e as suas sociedades convivem bem, apreciando-as, dando-as a conhecer e exaltando-as. 
Não raro, porém, vão para além do razoável, olhando mais para os resultados do que para os custos com que estes foram alcançados e, sobretudo, subestimando, indevidamente, possíveis consequências para o bem comum e para as gerações futuras. Veja-se o que se passa com a euforia do crescimento económico ilimitado que persiste, há mais de meio século, como indicador do desempenho político! Ou, em outro domínio, o fascínio com o conhecimento (da biologia, do psiquismo humano, da matéria,…) e o risco do alargamento do campo das manipulações genéticas e comportamentais em curso, sem o devido respaldo da Ética. (...).
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29 junho 2018

Uma nova primavera no movimento ecuménico

Passou despercebida, na comunicação social portuguesa, a presença do papa Francisco na celebração dos 70 anos do Conselho Mundial das Igrejas, que ocorreu no passado dia 21, em Genebra. Mas o facto foi lembrado – e bem – pelo artigo de Anselmo Borges no DN desta sexta-feira.

A presença do Papa Francisco neste evento vem confirmar o seu empenho em viabilizar uma nova primavera ecuménica, como o próprio quis assinalar com o lema que escolheu para esta viagem: caminhar, rezar e trabalhar juntos.
 
No mesmo sentido vão as palavras iniciais do seu discurso: Quis vir aqui, peregrino em busca de unidade e paz. 
 
De salientar, ainda, a sua afirmação de cariz mais programático: No movimento ecuménico devemos deixar cair do dicionário uma palavra: proselitismo.
 
Anselmo Borges aproveitou o seu artigo semanal de hoje para nos oferecer uma retrospectiva sucinta do movimento ecuménico e para assinalar alguns marcos históricos do percurso, que vem sendo feito, designadamente depois do Concílio Vaticano II. 

Em suma, um artigo a não perder.

08 junho 2018

Um gesto pelo ambiente sustentavel

No dia mundial pelo ambiente, veja e divulgue este vídeo (ver abaixo) e, sobretudo, inicie uma mudança no seu comportamento em favor de um ambiente sustentável!
http://casacomum.pt/2018/06/06/o-nosso-planeta-esta-a-afogar-se-em-poluicao-plastica/

02 junho 2018

Consciência e bem comum

nós e a ÉticaFernanda Tavares. 2018
Criado por Deus para a felicidade, o ser humano encontra na sua dedicação ao bem da comunidade em que se insere os meios para realizar essa felicidade pessoal e social. É missão da Igreja contribuir para a edificação de uma sociedade mais justa e fraterna, mais responsável e solidária. Ninguém pode ficar excluído dessa tarefa permanente. (Carta pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, Setembro 2013)
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Quando recordo as notícias das últimas semanas, não posso deixar de ficar perplexa. Refiro-me à violência gratuita em contextos onde se esperaria encontrar espaços de companheirismo e de fraternidade. Lembro, também, as denúncias acerca da corrupção activa e passiva que, no nosso País, vem ganhando proporções consideráveis, parece não conhecer limites nos expedientes usados e, como óleo derramado, vem atingindo indivíduos e grupos profissionais, até há pouco, considerados impolutos e acima de qualquer suspeita. 
 (...)
Precisamos de ter a coragem de reconhecer que é o ser humano que está em causa assim como a necessária mudança da sua própria consciência, esse lugar secreto em que se vão alicerçando as fronteiras do bem e do mal, com base no conhecimento, na tradição e na cultura e, sobretudo, na fé, quando esta existe. (...)

01 maio 2018

Estará a felicidade ao alcance de um “sim” à vida?

Coloquei diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência. (Dt 30,19)
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Can you predict if you will be happy?- BBC - Future
Consciente ou inconscientemente, cada ser humano, mulher ou homem, em idade jovem ou adulta, procura a felicidade, considerando esta como uma espécie de ápice ou plenitude da vida humana, que lhe servirá de horizonte no decurso da sua existência.
A felicidade está para além de uma alegria passageira, um prazer efémero, um sucesso profissional, um feito heroico, um aplauso e reconhecimento colectivo ou mesmo a envolvência de um grande amor.
Dir-se-á que a felicidade é um estado de alma, um atributo de um modo de ser, que permanece, ainda que com conteúdo indeterminado e variável de pessoa para pessoa, segundo as suas condições materiais de vida, as suas representações culturais, o seu status, a sua religião, ideologia e projecto político.
Compreende-se, assim, que, sendo um conceito subjectivo, não se pode ignorar ou subestimar que a busca da felicidade dependa também do contexto socioeconómico e seja, por este, influenciada.
Como definir a felicidade?  (...)
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14 abril 2018

Gaudete et Exsultate
Um chamamento à santidade no mundo actual

Com este título acaba de ser difundida uma Exortação apostólica do papa Francisco que deve ser escutada e dada a conhecer.

É uma mensagem de interpelação pessoal, dirigida aos cristãos, quaisquer que sejam as circunstâncias das suas vidas, no entendimento de que, pelo baptismo, todos, sem excepção, são chamados à santidade.

Logo de início Francisco explicita o seu propósito. O meu objetivo é humilde: fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades, porque o Senhor escolheu cada um de nós «para ser santo e irrepreensível na sua presença, no amor» (cf. Ef 1,4)
 
Mais adiante acrescenta, a partir da sua própria visão contemplativa, sempre atenta à realidade da vida humana: Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da «classe média da santidade».

O tom pessoal e, quase coloquial, de um pai ou de uma mãe em conversa com os seus filhos e filhas, não retira a importância que deve ser conferida a outras dimensões do texto: a sua fundamentação teológica e bíblica; a denúncia das falsificações, designadamente o gnosticismo e o pelagianismo; a análise da realidade do mundo actual e dos desafios e riscos a enfrentar; o alcance pastoral; a necessidade do discernimento; o lugar do silêncio, da oração e do serviço numa vida de santidade.

Em suma, direi que esta exortação apostólica oferece a cada pessoa não só um interpelador chamamento à santidade mas também um guia para lhe corresponder nas circunstâncias concretas do seu estado e condição de vida. 

01 abril 2018

A esperança é a arte de ver mais longe

Historicamente, a espera de uma saída para o Mundo nunca deixou de guiar, como uma chama, os progressos da nossa Fé. Os israelitas foram “expectantes” perpétuos; assim como os primeiros cristãos. - Teilhard de Chardin
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Everest - D. Prudek
De muitos e variados quadrantes sopram ventos de mudança na cena mundial que, com justificadas razões, não nos deixam em tranquilidade quanto ao futuro da Humanidade e à preservação desse bem inestimável que é a paz.
Estou a pensar, entre outras situações, nas tensões que, perigosamente, se vêm acumulando entre as grandes potências mundiais, a propósito da guerra na Síria, dos actos bélicos desencadeados pela Turquia contra as minorias curdas, da recente descoberta de uso de químicos letais de origem russa no Reino Unido, para não falar da informação e contra-informação com origem em serviços secretos de um e outro lado do Atlântico.
Estamos perante desafios tão sérios que quase apagam - ou fazem esquecer - as tragédias que, diariamente, acontecem com o afluxo de refugiados e migrantes que chegam a território europeu em situação de desespero e luta pela sua própria sobrevivência e as condições desumanas em que são obrigados a permanecer, meses e anos, nos campos onde são acolhidos; ou, ainda, as repetidas calamidades ditas naturais, na realidade provocadas por sérias alterações climáticas, por sua vez, correlacionadas com o paradigma económico vigente, ambientalmente pernicioso e insustentável. (...)
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06 março 2018

Interrogar-se sobre si próprio

O homem é o ser que se interroga sobre si próprio, perguntando: “Quem é o homem?” - Luciano Manicardi
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David - Miguel Ângelo.1504
Começo este escrito com uma extensa citação extraída da introdução de um livro de Luciano Manicardi, recentemente editado em português e intitulado Memória do limite. A condição humana na sociedade pós-mortal (Paulinas, 2017).
O autor, monge e prior do Mosteiro de Bose, reconhece a imperiosa necessidade de nos interrogarmos sobre questões nucleadoras do nosso modo de estar e de viver, questões que ganham hoje particular acuidade no nosso mundo ocidental em que a ciência e a tecnologia parecem abrir caminho a uma sociedade pós-mortal e onde, pretensamente, se esquece a condição criatural dos humanos.
Eis a citação:
O que é o humano? O que nos torna humanos? O que é um corpo humano? Como viver e como morrer “humanamente”? Estas perguntas ressoam com uma força particular num tempo que, pelo menos no Ocidente rico e tecnologicamente avançado, conhece a implementação de um verdadeiro arsenal de tecnologias biomédicas aplicado ao corpo humano que tem vindo a modificar radicalmente a sexualidade e a procriação, o nascimento, o envelhecimento e a morte do homem. São perguntas que podemos temer porque revelam um futuro desconhecido e que nos pode assustar. Todavia, ao mesmo tempo que declaram aberta aquela fase cultural que alguns colocam sob o signo do pós-humano, estas interrogações fazem-se apenas eco da antiga afirmação platónica segundo a qual uma vida que não se interrogue nem busque não é digna de ser vivida. O homem é o ser que se interroga sobre si próprio, perguntando: “Quem é o homem?”.
A resposta que possamos encontrar para estas interrogações marcará, decisivamente, o modo como conduzimos as nossas vidas … (...)

01 fevereiro 2018

Os ídolos são como espantalhos num campo de pepinos

As nossas cidades capitalistas só de consumo são cada vez mais semelhantes a Babilónia a e Nínive e a transmutação idolátrica das antigas fés é cada dia mais evidente.- Luigino Bruni
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Totem - Woodcarvingstanleypark,
(...) Há cerca de 400 anos, Francisco de Sales confessava: O meu passado já não me preocupa: pertence à misericórdia divina. O meu futuro também não me preocupa: pertence à providência divina. O que me preocupa é o agora, aqui e hoje: ele pertence à graça divina e ao empenho da minha boa vontade.
Temos muitas e complexas razões para nos preocuparmos com o aqui e o agora. De entre elas, destaco o que vem sucedendo à nossa casa comum, para usar a designação do papa Francisco na encíclica Laudato Si’ acerca dos males que afligem o Planeta Terra e com a sã convivialidade da Humanidade consigo mesma e com os demais seres que nele habitam.
Na origem destes males estão os muitos ídolos erguidos pela cultura hodierna e sustentados por uma economia que se foi distanciando - ou mesmo divorciando - do seu fim de responder às necessidades da sustentação e do desenvolvimento da Vida e, em vez de prosseguir esse objectivo primordial, para todos, vem servindo - e até fabricando - os seus próprios ídolos: lucro máximo, crescimento ilimitado, produtividade crescente, competitividade sem regras…
 (...)