01 março 2019

Greta Thunberg – a voz dos pequenos

Aprendi que nunca se é demasiado pequeno para fazer a diferença (Greta Thunberg)
Greta Thunberg. Michael Campanella
Apresentou-se como uma adolescente de 15 anos (vinda de um pequeno país, a Suécia) na última cimeira do clima realizada em Katowice na Polónia, no passado mês de dezembro. Numa curta, mas vigorosa mensagem, disse ao que vinha: Falar em nome de Climate Justice Now (Justiça climática já!). 
Faltou à escola para poder estar naquela magna reunião e veio de comboio - e não de avião - por coerência com a sua causa. Admitiu o desconforto de ter de enfrentar um público de líderes mundiais que, por ventura, dizem defender uma economia verde, mas não ousam enfrentar o mito do crescimento ilimitado e resistem à implementação das mudanças indispensáveis e urgentes para alcançar a sustentabilidade, porque temem que tais decisões serão consideradas impopulares. 
“Vocês só falam em avançar com as vossas más ideias que nos conduziram a esta calamidade, mesmo quando a única coisa acertada seria meter o travão de emergência a fundo”.

01 fevereiro 2019

O quotidiano lugar de revelação

O Senhor está realmente neste lugar e eu não o sabia! (Gen 28,16)
Sino de Betânia. mcst 2014

Na sua última conferência, realizada em Lisboa em 5 Outubro passado, Luciano Manicardi, prior do Mosteiro de Bose (Itália) lançava esta interrogação: “se até numa colherinha de café o sol se reflete”, devermos perguntar-nos: existem coisas “banais”?
Toda a conferência foi uma interpelação dirigida ao modo como olhamos o nosso quotidiano, nas suas múltiplas vertentes e como o vivemos na relação que temos com as coisas que usamos, as compras que fazemos e as lojas que escolhemos, as tarefas que desempenhamos, as profissões que exercemos, os encontros que temos e as relações que no dia-a-dia vamos tecendo, os espaços que habitamos, os transportes a que recorremos…
Aquilo com que lidamos no nosso quotidiano diz muito de nós, das nossas opções pessoais e do nosso sentido de vida e, simultaneamente, vai deixando, em cada pessoa, marcas existenciais. Assim sendo, não podemos descurar a sua importância, pois, como diz Luciano Manicardi: elas (as “coisas”) são o diálogo ininterrupto que os sentidos estabelecem com o mundo e, através dos quais, o mundo toca a nossa alma. Deste modo, o quotidiano tem, assim, uma valência antropológica mas, também, espiritual. (...)

01 janeiro 2019

Todos somos responsáveis pelo bem comum

As recentes manifestações de contestação social (sejam elas as greves simultâneas por parte de distintos sectores socioprofissionais que se vêm sucedendo em Portugal ou os movimentos inorgânicos, como foram os “coletes amarelos” nascidos em França e, posteriormente, replicados em outras geografias, incluindo o nosso País) merecem reflexão, não só pelos seus efeitos, mas também pelas causas que estão na sua génese e propalação e, sobretudo, porque é urgente ir ao encontro destas vozes, saber escutá-las e dar-lhes resposta.
Água-um bem comum ameaçado.[link]
Não é por acaso que tais manifestações surgem em países com níveis de riqueza e de prosperidade elevados, civilizações avançadas no conhecimento científico e tecnológico e no reconhecimento de direitos humanos fundamentais, espaços de liberdade e garantidos direitos constitucionais de igualdade de oportunidades para todos. Por outro lado, dir-se-ia que, em termos comparativos, tanto no espaço como no tempo, a realidade, que é objecto de contestação, apresenta, no entanto, uma evolução positiva. Com efeito, é inegável que vive-se melhor hoje do que há 30 ou 50 anos e a Europa, com o seu modo de vida, continua a ser um polo de atracção para refugiados e migrantes de outros continentes.
Porquê, então, esta onda de contestação social? (...)  

01 dezembro 2018

Escutar. Responder. Libertar.

Este pobre clama e o Senhor o escuta (Sal 34, 7). Façamos também nossas estas palavras do Salmista, quando nos vemos confrontados com as mais variadas condições de sofrimento e marginalização em que vivem tantos irmãos e irmãs, que nos habituamos a designar com o termo genérico de “pobres”. (Papa Francisco)
La gente pobre. Jazmin Ruiz. 2015
É com estas palavras que o Papa Francisco começa a sua Mensagem para a celebração do dia Mundial dos pobres de 2018. Retomo-as, no início do novo ciclo litúrgico, como inspiração para este tempo de advento e da quadra natalícia que se avizinha.
Mergulhados e imbuídos, que estamos, na cultura dominante, corremos o risco de pôr entre parêntesis critérios evangélicos e ceder à tentação das propostas que todos os dias nos chegam pelos media e pelo marketing e fazer desta época o ápice do consumismo e do negócio, esquecendo os mais frágeis e descurando impactos sobre o cuidado a ter com a nossa casa comum. 
Uma redobrada atenção aos mais pobres pode servir-nos de antídoto ao consumismo, ao desperdício e à cultura do descarte e abrir a nossa mente e o nosso coração aos valores da inclusão, da solidariedade e da fraternidade, em consonância com o evangelho.
Na mensagem de Francisco, encontramos, em espelho com a tradição bíblica, aquilo que deve ser a relação dos crentes com os mais frágeis e marginalizados, incluindo o Planeta em que habitamos.
Francisco destaca três verbos que exprimem a relação do pobre com Deus. São palavras-chave que devemos ter em conta: escutar, responder, libertar. (...) 

01 novembro 2018

Espanto e agir consequente

Espanta-te ainda, espanta-te mais uma vez.
(José Tolentino Mendonça, Elogio da sede, 2018)

Foi com as palavras desta epígrafe que Tolentino Mendonça deu início à sua primeira pregação dos exercícios espirituais dirigidos ao papa, cardeais e demais membros da Cúria, na quaresma deste ano. Subjacente a este inusitado convite-desafio, estava o texto do evangelho de João, a narrativa do encontro de Jesus com a samaritana à beira do poço de Jacob e as suas intrigantes palavras “dá-me de beber”. Ele homem judeu e ela mulher samaritana…
Espanta-te ainda, espanta-te mais uma vez, são palavras que nos interpelam e desafiam. A nós que, tal como os seus primeiros destinatários, a dada altura da vida, parece que já vimos tudo, já vivemos e sabemos tudo, e olhamos para a realidade protegidos por aquilo que julgamos ser uma distância de um acumulado saber.
O espanto nasce da atenção que prestamos à vida nas suas múltiplas facetas, no plano pessoal e na relação com os demais seres, no espaço da proximidade e vizinhança ou na lonjura do mundo e do cosmos, no avanço do conhecimento e da tecnologia ou na política. Conjuga-se com a capacidade de surpresa e admiração, com sentimentos de medo ou de júbilo. 
Por outro lado, o espanto suscita curiosidade e interrogação (o filosofar assenta alicerces no espanto!), mas ficará em défice de completude se não nos move ao discernimento contínuo e ao agir consequente. (...)
Créditos de imagem:
Pope Paul VI and Archbishop Oscar Romero pose together in an undated file photo, in Photo courtesy of Oficina de Canonizacion de Mons. Oscar Romero.