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28 março 2014

Religião e Espiritualidade


Ainda há muita gente que confunde religião com espiritualidade, mas trata-se de duas realidades diferentes.

Num pequeno texto, de circulação interna, Fernando Belo, Professor da Faculdade de Letras de Lisboa, vem chamar a atenção para a necessidade desta distinção. Esta clarificação é fundamental no caso do cristianismo.

Como diz Fernando Belo: No evangelho, a distinção é clara desde o início: o apelo à conversão com o baptismo como ritual de ruptura, tendo sido o mundo político-religioso quem condenou os dois que apelavam à conversão, João Baptista e Jesus. Este opôs Deus não apenas ao Dinheiro (Mateus 6,24) e ao poder político ocupante de César (idem 22,21) mas também ao Deus dos mortos (“ele não é um Deus de mortos mas de vivos”, Marcos 12,27), isto é, ao poder religioso do Templo, como mostra uma palavra dirigida a alguém que queria seguir o mestre mas primeiro devia enterrar o seu pai: “deixa os mortos enterrarem os seus mortos” (Lucas 9,60); o Deus dos mortos é o dos antepassados mortos e enterrados, donde deriva a religião. Durante alguns séculos, o cristianismo foi um movimento espiritual no meio de outros no império romano, foi mesmo perigoso ser cristão em certas épocas, mas depois os Césares escolheram-no como religião oficial em vez da ancestral. Em poucas gerações no Ocidente, o cristianismo tornou-se religião holística ancestral, o baptismo tornado rito de bebés, sinal evidente da mutação. Mas há outro sinal muito mais óbvio: a partir daí, a religião não deixou de parir nas suas margens movimentos espirituais que se referiam à aposta evangélica adulta contra os senhores deste mundo.

O Papa Francisco com a sua palavra profética e testemunho de vida em gestos simples mas cheios de simbologia (por exemplo, a sua opção de não habitar no Palácio do Vaticano!) é um apelo eloquente a que temos de cuidar da espiritualidade evangélica e, através da vida pessoal e das comunidades cristãs, torná-la presente no mundo em que vivemos, nas famílias como nas empresas, na vida política como nas instâncias de regulação financeira, uma espiritualidade que permeie a cultura e inspire e motive as opções do quotidiano.

Este modo de viver a fé cristã, hoje, será uma ponte necessária para saber acolher outras espiritualidades e com elas cooperar na concretização de um mundo mais justo, solidário e sustentável.

Concluo com o final do texto que inspirou esta reflexão:

Faz parte de ser espiritual hoje que, crentes ou não, demos as mãos – livres e solidárias – contra a dominação da alta finança sobre o medíocre poder político e os médias ao seu serviço.

08 março 2014

Sem separar a linha da terra e do céu

No escrito de Março deixava um convite para esta quaresma 2014 – Redescobrir a fonte donde emana o nosso ser e agir. Neste pequeno texto, José Augusto Mourão aponta-nos um caminho.
(...)
 
8. Este é o tempo da grande iluminação: Ver é estar de vigia ao que deve surgir do fundo sem nome, do silêncio, sem separarmos a linha da terra do céu. Ver é existir a partir do nosso futuro. O diabo é exactamente aquele que separa o céu e a terra, o regente do reino-de-baixo, recusando a referência celeste. Não é possível desertar para ganhar um qualquer “deserto” – o deserto é a atracção do horizonte negativo. O desejo de um corpo de velocidade absoluta é uma tentação do diabo a que pertence o culto da superfície-mãe: Lilith.

9. Ver não é rever nem adivinhar contornos, formas de habitar. É preciso manter atenção ao tempo, não quebrar a linha inseparável entre o céu e aterra. O confronto adaptativo não salva porque não arrisca nada. Não era apenas no tempo de Granada que havia homens “dormidos e desalmados” a precisar daquele que baixou do céu á terra vestido da carne humana. Peçamos aquilo que Romano Melódio pediu: Vós que tendes sede vinde a mim e bebei. Orvalhe este coração humilhado/ que o caminho errante dividiu/ e consumiu de fome e sede/fome não de alimento, e sede/ não de bebida/ mas de escutar a palavra do Espírito/ assim ele geme baixinho esperando/ que o julgues/ tu que apareceste e tudo iluminaste.

(José Augusto Mourão: O rosto e a sua sombra, in Quem vigia o vento não semeia, p. 354-355)

16 agosto 2013

Em Tempo de Férias


Em tempo de férias, cabe lembrar estas palavras de Bernard de Clairvaux dirigidas ao Papa Eugénio III (século XII) que, a meu ver, continuam a ter grande actualidade no nosso tempo, confrontados/as, que estamos, com muitas solicitações, ruídos variados, incertezas múltiplas.

O convite ao centramento no essencial do nosso ser mais profundo, como condição para uma realização humana feliz e autêntica, merece acolhimento e resposta. 

Partilho com os leitores e leitoras o belo texto de Bernardo de Clairvaux. que encontrei no Bulletin de la Fraternité Spirituelle des Veilleurs, Julho 2013


 Reviens à toi-même
Comment peux-tu être vraiment présent pour les autres
Si tu t’es perdu toi-même?
Si tu passes toute ta vie en activité
Et si tu ne te crées pas d’espaces pour le silence.
Commence à te découvrir,
pour que tu ne t’oublies pas en allant vers les autres.
Comment peux-tu être pleinement humain… si tu t’est perdu?
Toi aussi tu es un être humain.
Si toutes et tous ont le droit d’avoir une part de toi,
sois alors aussi un homme qui a le droit de  t’avoir.
Pourquoi seras-tu le seul qui n’ait rien de toi-même?
Combien de temps encore offriras-tu ton attention à tous
sauf à toi-même?
Tu te sens proche des sages et des fous
et tu ne connais pas ce devoir d’être proche de toi-même.
Tout le monde puise dans ton coeur
Comme si tu étais une fontaine publique,
et toi même, tu restes assoiffé à côté!
N’est-tu pas étranger à tous si tu restes étranger envers toi-même?
Oui, celui qui est mal avec lui-même, avec qui peut-il être bon?
N’oublie pas: offre-toi à toi-même!
Je ne dis pas: fais-le toujours, mais je dis: fais-le de temps à autre.
Sois comme pour tous les autres: présent pour toi aussi.
(São Bernardo de Clairvaux ao Papa Eugénio III, sec XII)
 

18 julho 2013

José Dias da Silva - um Profeta do nossoTempo



José Dias

Faleceu esta semana o José Dias da Silva.

Ainda sob o impacto da surpresa da sua morte, recordo o amigo que partiu como um profeta do nosso tempo cujo testemunho merece ser lembrado.

Grande conhecedor da Escritura e do Pensamento Social da Igreja, o Zé Dias dedicou a sua vida ao anúncio da Palavra, incluindo, durante os longos anos em que a doença ia corroendo as suas forças físicas. Mesmo nos períodos mais críticos, o Zé Dias não deixava sem resposta as solicitações do momento e os compromissos assumidos, desdobrando-se numa presença vigilante e activa de resposta aos sinais dos tempos.

Foi professor universitário, mas deixou, voluntariamente, a vida académica para se consagrar ao serviço da Igreja e à transmissão da mensagem evangélica com inteira disponibilidade para a missão.

Viveu na simplicidade e na humildade e exprimia, no seu quotidiano, por palavras e por actos, a beleza da fraternidade e a exigência da solidariedade com os mais pobres.


Transparecia na sua vida que o movia a fé no testemunho de Jesus de Nazaré e o projecto evangélico de justiça, amor e paz, que abraçava com radicalidade de opções e experiência vivencial.

28 maio 2013

OS 10 MANDAMENTOS DA SERENIDADE

Ao preparar uma entrevista para o programa Ecclesia em homenagem ao Papa João XXIII, lembrei-me dos seus 10 mandamentos da serenidade e dei-me conta de como eles se revestem de particular actualidade no nosso tempo revestido de tamanha complexidade, incerteza e rudeza. Por isso aqui os reproduzo e compartilho com os leitores do Ouvido do Vento. Que a todos e todas transmitam a serenidade de que precisamos!
1. Hoje tratarei de viver exclusivamente este meu dia, sem querer resolver os problemas da minha vida todos de uma vez.
2. Hoje terei o máximo cuidado com o meu modo de tratar os outros, sendo delicado nas minhas maneiras, sem criticar ninguém; não pretenderei melhorar ou disciplinar ninguém senão a mim.
3. Hoje sentir-me-ei feliz com a certeza de ter sido criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.
4. Hoje adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem todas aos meus desejos.
5. Hoje dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando-me que assim como é preciso comer para sustentar o meu corpo, assim também a leitura é necessária para alimentar a vida da minha alma.
6. Hoje praticarei uma boa acção sem a contar a ninguém.
7. Hoje farei uma coisa de que não gosto e se for ofendido nos meus sentimentos procurarei que ninguém o saiba.
8. Hoje farei um programa bem completo do meu dia. Talvez não o execute perfeitamente, mas em todo o caso, vou fazê-lo. E me guardarei bem de duas calamidades: a pressa e a indecisão.
9. Hoje permanecerei bem firme na fé de que a Divina Providência se ocupa de mim, mesmo se existisse só eu no mundo – ainda que as circunstâncias manifestem o contrário.
10. Hoje não terei medo de nada. Em particular, não terei medo de gozar do que é belo e não terei medo de crer na bondade.
Papa João XXIII

30 abril 2013

A Última Beguina
– Aprender com a História

Entre nós, passou despercebida à comunicação social a notícia da morte da última beguina, Marcella Pattyn, com 92 anos, no dia 14 do passado mês de Abril. Mas jornais de outros países aproveitaram o acontecimento para trazer à actualidade o que foi o movimento das beguinas, iniciado no século XII no centro da Europa (há historiadores que pretendem fazer remontar esta origem ao ano de 663). O Ouvido do Vento quer assinalar alguns traços deste Movimento de cunho profundamente espiritual e emancipatório.

O Movimento das Beguinas é um exemplo surpreendente da capacidade inventiva das mulheres e inscreve-se no longo percurso de emancipação das mulheres e da sua presença na Igreja e na sociedade. Na sua matriz cultural e espiritual, estão presentes muitos dos traços desse longo processo emancipatório e de procura de um lugar genuíno na sociedade e na Igreja, por parte das mulheres.

As beguinas caracterizaram-se pelas suas opções de vida. Romperam a barreira da escolha que, na época, lhe era proposta (ou esposas ou monjas), eram celibatárias, mas também viúvas e, em alguns casos, mulheres casadas que, vivendo nas suas casas de família, participavam da espiritualidade e das missões comuns das comunidades das beguinas. Viviam em habitações próprias, sozinhas ou com algumas companheiras, mas mantendo grande autonomia; procuravam viver do seu trabalho e optavam por um estilo de vida simples e pobre; prestavam serviços caritativos às pessoas da vizinhança que a elas recorriam, nomeadamente cuidados de saúde, de enfermagem ou de educação das crianças. Quase todas praticavam alguma arte, no domínio da pintura ou da música. Algumas distinguiram-se na poesia mística escrita em língua vulgar, contrariando o uso do latim

Recusavam qualquer voto de clausura ou de obediência a uma regra conventual ou monástica. Superaram, igualmente, os vínculos do parentesco e da dependência patriarcal; todavia, mantinham grande prática de solidariedade e entreajuda e, embora, provenientes de diferentes estratos sociais conviviam entre si fraternalmente.
Organizavam e muitas vezes dirigiam o culto em língua vernácula, contrariando o hábito da altura da liturgia em latim.

O Movimento foi particularmente relevante nos últimos séculos da Idade Média, sobretudo na Flandres, mas espalhou-se a outras regiões do centro da Europa.

Constituiu um viveiro de mulheres cultas, sábias e santas, que prezavam a sua autonomia e as suas capacidades femininas.
Apreciadas por muitos dos seus conterrâneos, não evitaram, porém, que o Movimento tivesse merecido a condenação do concílio de Viena em 1311, por suspeita de heresia, sendo que algumas beguinas conheceram mesmo a fogueira, como sucedeu com Marguerita Porète.

Certamente sem o fulgor que alcançaram na alta idade Média, as comunidades das beguines mantiveram-se por largos séculos e ficam na história como testemunho do valor de comunidades de mulheres espirituais leigas, dedicadas a Deus, mas independentes da hierarquia eclesiástica, autónomas na obtenção do seu sustento e na organização da sua vida pessoal, atentas ao próximo e às suas necessidades, informadas e cultas.

26 fevereiro 2013

Leituras Plurais sobre as Bem-aventuranças

Na sua crónica publicada no DN do passado dia 24 Fevereiro, Anselmo Borges lembrou a morte, aos 88 anos, de José Gomez Caffarena, filósofo e padre jesuíta. Fê-lo transcrevendo um texto deste crente “afável e crítico”, como lhe chamou, o qual é uma releitura actualizada e pessoal das bem-aventuranças.

De há muito que as narrativas evangélicas acerca das bem-aventuranças têm inspirado a reflexão e a escrita de amigos e amigas da Fundação Betânia, como várias vezes temos referido neste blogue.

Gostei desta versão de José Gomez Caffarena e por isso a transcrevo, desejando que o texto agora publicado no Ouvido do Vento,  não só fique guardado nos arquivos de Betânia para desenvolvimentos futuros, como também sirva, desde já, de inspiração para os nossos percursos pessoais de conversão, em direcção à Páscoa.
Eis o texto referido:

"Bem-aventurado aquele que ama e descobriu a dita de partilhar o mundo. Bem-aventurado quem não se isola na sua pequenez pensando ilusoriamente com isso que se vai 'realizar'. Bem-aventurado aquele que ama a vida tal como é e não como tende a representá-la. Bem-aventurado o humano que é capaz de acolher o outro humano para lá de toda a consideração das vantagens que possa trazer-lhe, que entendeu o perdão sem memória e a ternura sem retorno. Bem-aventurado aquele que chegou a conceber o imenso projecto da universalidade reconciliada. Bem-aventurado aquele que é consciente de que na sua pequenez é puro dom e graça, e sabe, no entanto, sentir-se a partir dela responsável pelo Reino inteiro da justiça, participante de um olhar divinamente maternal para os mais humildes e sofredores, as vítimas da opressão. Bem-aventurado quem não se escandaliza da pequenez humana, nem da própria nem da alheia, e crê que é possível que essa pequenez floresça na grandeza de uma fraternidade sem fronteiras. Bem-aventurado quem aceita a dor da luta sem ódio pelo dar à luz da verdade. Bem-aventurado quem é capaz de ver a possibilidade da paz antecipada, quem compreende que a violência é promessa enganosa, quem acha fecundo crer na bondade primeira do coração humano. Bem-aventurado quem não se escandaliza de a dor e a morte terem o seu tempo que não é possível eliminar definitivamente. Bem-aventurado quem crê que uma morte prematura de profeta é também eternamente fecunda."

(Texto de José Gómez Caffarena, citado por Anselmo Borges in As bem-aventuranças de um crente afável e crítico, artigo publicado no DN 24 Fev2013).

24 janeiro 2013

Da Separação à Alegria da Comunhão


No termo de mais uma semana de oração das igrejas cristãs pela unidade, vem a propósito recordar este poema de Carlos Falcão:

A separação

As palavras já vão longe, mas eu levo o caminho.
“Eis o que não se entende”, diz aquele que observa
Do lado mais parado. Se paro não entendo.
Mas não há separação, as palavras abrem campos
Para o mesmo avanço, batem-nos, assaltam-nos
E, quando lá chegam, aí é onde eu estou.
Não estou, elas vão longe, detêm-me o caminho
São as batedoras em respiração. E isso não se entende.
Aquele que observa dá voltas noutro braço, lê
E não persegue, vê, não irradia, tem um saber parado
Quero ser claro: tu és o separado e o poema sabe
Cavar o teu lugar, retirar-te ao dom, banir-te da magia.

Escrito, certamente, em contexto diferente para o qual o convoco, o poema escolhido fica a iluminar os dois pólos que importa combinar para ultrapassar a separação: a palavra que se adianta e ilumina o caminho, a oração comum que atrai a dádiva da comunhão e cava o lugar da alegria.

18 janeiro 2013

Para uma Liturgia do Hoje


Celebrar é rememorar
Mas também fazer acontecer
Como se o hoje fosse o dia
Em que o Sopro nos visita
E a Palavra se apresenta
qual gramática segura da nossa humanidade.

Hoje ninguém poderá dizer:
Que se atemoriza com um rosto de criança
Que permanece indiferente ao sorriso de um menino
Que ficará insensível a um grito de carência
De alguém que está por perto.
Voltar as costas ao próximo é palavra proibida.

É esta a liturgia do hoje.

Ponte para a escuta do mistério
Para o encontro que vai muito além do visível
Convite à permanente transumância
Das pastagens conhecidas e gastas
Ao imprevisível dos horizontes largos do futuro.

É esta a liturgia do hoje.

Com a esperança nos prados claros, verdejantes e limpos
Que nos esperam em chave de promessa.

08 dezembro 2012

Viver uma fé adulta



A este título, o editor acrescenta: itinerário para um cristianismo credível. É disso que se trata: um trânsito da Palavra à fé e desta à radicalidade da vida pessoal e comunitária.

Luciano Manicardi, o Autor deste livro, recentemente editado pelas Paulinas, expressa a sua intenção com estas palavras: situar-se na esteira do ensino do Vaticano II e voltar à genuinidade dos evangelhos para afirmar a simplicidade e a radicalidade da fé numa perspectiva essencialmente prática.

Como escrevi no prefácio: Apesar do recurso abundante às fontes, à hermenêutica e à exegese dos textos (não fora o Autor professor e investigador no domínio dos estudos bíblicos e antropológicos!), não receie o/a leitor/a o risco de se perder numa floresta de erudição. Este monge de Bose, que é mestre de noviços, tem a sensibilidade e o cuidado de, com pertinência, relembrar, uma e outra vez, durante todo percurso da escrita, a essencialidade da fé como busca, como risco, como prática e como dom, enquanto nos vai mostrando como o contacto com as Escrituras e a beleza dos textos leva à conversão e à mudança radical de atitudes e comportamentos, tanto na vida pessoal do crente, como na vida das comunidades eclesiais, sendo que esse é também o caminho mais seguro para uma evangelização autêntica.


A leitura orante, dialogada com outrem e confrontada com a própria vida será uma boa pista para celebrar o Ano da Fé proposto por Bento XVI à Igreja universal.


[ Consulte também a nossa banda de navegação lateral  com sugestões de leitura, onde poderá encontrar referências a esta e a outras obras. ]

09 agosto 2012

Amor eterno


Hoje, a Igreja lembra Edith Stein (1891-1942), mulher de origem judia, convertida ao cristianismo, monja carmelita e que viria a morrer em Auschwitz. Escolhida como padroeira da Europa, dá testemunho da sua fé e deixa um legado de escritos filosóficos, teológicos e místicos que abrem para os horizontes largos da transcendência.

Hoje, a Igreja celebra a sua festa litúrgica, razão por que a assinalamos no Ouvido do Vento, deixando esta interrogação:

Não estará a Europa, distraída das suas raízes e inebriada pelos ídolos da técnica e do consumismo, a precisar de olhar para o Alto?



Quem és tu,

Doce luz que me preenche

e ilumina a obscuridade do meu coração?

Conduzes-me como a mão de uma mãe

E, se me soltasses,

não saberia nem dar mais um passo.

És o espaço que envolve todo meu ser e o encerra em si.

Se fosse abandonado por ti,

cairia no abismo do nada,

de onde tu o elevas ao Ser.

Tu, mais próximo de mim que eu mesmo

e mais íntimo que minha intimidade.

E, sem dúvida,

permaneces inalcançável e incompreensível,

E que faz brotar todo nome:

Espírito Santo — Amor eterno!

(Edith Stein)

26 julho 2012

Hildegard de Bingen - Doutora da Igreja

Por decisão do Papa Bento XVI, Hildegard de Bingen, mística medieval famosa pelas suas profecias, receberá o título de Doutora da Igreja em Outubro de 2012. A par de Teresa de Ávila, Catarina de Sena e Teresinha de Lisieux passarão a ser 4 as Mulheres que a Igreja assim reconhece.

Bento XVI está muito ligado à figura de Santa Hildegard de Bingen e pretende proclamá-la, em outubro de 2012, "Doutora da Igreja": um título raro e solene, atribuído a santos que, graças à sua vida e aos seus escritos, foram iluminadores para a doutrina católica. [ + ]

Hildegard de Bingen
“Hildegard de Bingen foi uma visionária, profeta e mística do século XII. Escreveu uma obra profética, isto é, revelada, na qual transcreve a voz de Deus, mas também na qual introduz passagens autobiográficas em que fala de uma experiência de união com Deus”. Mas não só: “Ela escreveu uma obra ‘científica’, nascida da observação direta da natureza. Foi poeta e compôs música”. Nestas poucas linhas, Victoria Cirlot, professora de Filologia Românica na Faculdade de Humanidades da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, busca resumir um “caso único” da história da mística e da espiritualidade universais.
[ a entrevista de Victoria Cirlot]

28 março 2012

Em que se concretiza a minha fé?


A fé viva é um olhar especial para as coisas, para as pessoas e para os acontecimentos sob o prisma do sentido absoluto da vida humana, que é Deus. É o acto de colorir a vida com a cor do transcendente, vendo-a à luz de Deus. Para a pessoa de fé, as coisas da vida não são originalmente profanas ou sagradas. São sacramentais: velam e revelam Deus, evocam Deus, são mediadoras de um encontro com Deus. A fé implica uma atitude contemplativa da vida humana e do mundo como lugar onde Deus se dá. Mas é ainda mais do que isso. É adesão à pessoa de Jesus visto como Filho de Deus e como mediador entre Deus e nós. Quando Jesus pede a fé aos que vêm ao seu encontro, propõe a necessidade de confiar na sua pessoa, sem seguranças e sem certezas documentais: só “sabendo de quem me fiei”.
Foi com estas belas e profundas palavras que o Prof. Armindo Vaz começou a sua comunicação nas Jornadas Teológicas recentemente realizadas na Faculdade de Teologia da Universidade Católica
Partilho-as, hoje, com quem visita este blogue, lembrando que, a pouco tempo da celebração da Páscoa, devemos não passar ao lado de questões fundamentais da nossa existência humana e cristã, devemos saber acolher interrogações como esta: Em que se concretiza a minha fé?

10 março 2012

Os Cristãos e o Mundo


Participei, na passada sexta-feira, nas Jornadas de Estudos Teológicos promovidas pela Faculdade de Teologia de Lisboa, com uma comunicação que tinha por tema: O testemunho dos cristãos no espaço público.
Partilho com os leitores e leitoras do Ouvido do Vento algumas ideias-chave dessa comunicação:

• Rever em profundidade o rosto da Igreja implica que o mundo e os sinais dos tempos, sejam entendidos como história humana e lugar da auto-comunicação de Deus.

• A relação da Igreja com o mundo não é pura justaposição, mas imanência mútua. A presença da Igreja no mundo significa assumir a interioridade do mundo na Igreja. A relação, portanto, não é unidireccional nem apendicular, mas constitutiva, tanto para a compreensão da Igreja, em si mesma, como para uma compreensão cristã do mundo.

• A Igreja pós conciliar só encontrará lugar na modernidade numa posição dialogante com os anseios dos diferentes povos e culturas, numa atitude sincera de serviço em humanidade, uma Igreja que procura, empenhadamente, respostas para os problemas inquietantes da justiça social, da equidade na partilha dos bens e das oportunidades de desenvolvimento, da sustentabilidade ambiental e da paz.

24 fevereiro 2012

Prestar atenção: a responsabilidade pelo irmão

… (numa) fragilidade constantemente ameaçada, afirmamo-nos, desesperadamente, como se fossemos a fonte e a origem de nós mesmos e do universo. Cada um quer ser “si próprio”, num sentido único, cada um quer ser o senhor do seu destino, cada um quer ser insubstituível. Regressamos sempre a nós mesmos, à nossa história, à nossa justificação, às nossas pretensões, às nossas comparações com os outros, em seu desfavor, bem entendido. E isto para nos criarmos um pedestal. Está aí o mal radical que corrompe em nós tudo o que é possível no plano espiritual: esta possessão de nós mesmos por nós mesmos que nos atira para um eu ilusório, doente, totalmente dependente e que não existe senão estando contra, por um orgulho que defende as suas posições. (Alphonse Goettman, padre ortodoxo, Carta para a Quaresma 2012)

Sabiamente, a liturgia da Quaresma vai lembrando ao longo destes quarenta dias que diante de cada pessoa se apresentam dois caminhos: o da Vida e Felicidade e o da Morte e Infelicidade. A escolha é connosco, mas a nossa própria liberdade pode estar enferma e viciada por preconceitos, ideias feitas, hábitos arreigados e por isso precisa de revisão.

Escolher acertadamente requer que paremos para escutar as pulsões que nos habitam e para discernir os caminhos das nossas boas e más opções.

O Papa Bento XVI na sua mensagem para esta quaresma enfatizou como foco de conversão: Prestar atenção: a responsabilidade pelo irmão. Uma proposta da maior oportunidade e alcance num tempo propício ao individualismo exacerbado e mortífero.

09 fevereiro 2012

Beleza – uma grande necessidade do ser humano


Cada vez mais me dou conta que andamos muito distraídos de coisas essenciais à nossa vida e à sua felicidade possível, abafando-as com preocupações e trabalhos diversos de utilidade duvidosa, mas esgotantes do nosso tempo e energia.

É assim com a falta de apreço pela beleza, a natural e a construída, e com o que tal implica de procura e de cultivo, que, não raro, descuramos ou secundarizamos a outros interesses.

A este propósito, lembro uma afirmação de Bento XVI que aqui deixo como desafio aos leitores e leitoras: A beleza é a grande necessidade do homem, é a raiz da qual brota o tronco da nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convida à liberdade e arranca do egoísmo. (Barcelona, 2010)

Será que temos a devida consciência de que a beleza é mesmo uma necessidade? E, se assim é, há que procurá-la, tanto em momentos e ocasiões especiais  como no trivial dos nossos quotidianos?

Será que a beleza merece a nossa atenção e o nosso cuidado na transmissão de valores às novas gerações, nas famílias, nas escolas, na comunicação social, nos outdoors das nossas cidades?

De modo especial, Com ou sem “pontes” e “feriados”, aproveitemos o nosso tempo para procurar, contemplar e cuidar da beleza natural porque, como escreve Fiodor Dostoievski,  a Beleza salvará o mundo.

03 fevereiro 2012

Vivei sempre alegres (I Ts 5, 16)

O que quereria Paulo recomendar aos cristãos de Tessalónica no ano I da nossa era, tempo de perseguição e dominação estrangeira?

Certamente não seria sua intenção apontar-lhes como ideal de vida que fechassem os olhos ao que há de mal no mundo, ignorando-o, e insinuar que se refugiassem no seu pequeno espaço protegido; nem tão pouco queria o Apóstolo exaltar a insensibilidade face ao sofrimento alheio, como se o outro não fosse parte de mim; nem, muito menos, pretendia que os seus discípulos praticassem estratagemas de disfarce, exibindo contentamento em situações objectivas de real tristeza, como às vezes vemos ser defendido por algumas  pretensas espiritualidades…

Então, que mensagem, queria o Apóstolo transmitir?

Talvez estas ideias força de que nos fala José Augusto Mourão no seu escrito intitulado Alegria (in)condicional (in Quem Vigia o Vento não Semeia, p.131):

Toda a força de existir atrai o corpo para a completude, o contágio, a alegria. Sem a jubilatio de existir, a vida seria invariavelmente invernal e frustre. O ser humano não quer apenas viver, quer viver feliz, e quando o não consegue quer viver de outra maneira, ou deixar de viver.

Que o grito de alegria seja um grito de guerra contra todas as superstições que nos querem agrilhoados à tristeza.

A verdadeira vida faz-se a caminho da Terra da alegria.

O reconhecimento profundo de que somos seres em construção, pessoalmente e colectivamente, leva-nos a viver da e na alegria dessa construção e impulsiona-nos a deixar essa marca nos espaços em que habitamos. 

A alegria e a esperança caminham a par e são, em si mesmas energia geradora de mais Vida.


11 janeiro 2012

A Estrela da Revelação

A cada pessoa é dada uma estrela de Revelação, uma estrela que lhe apontará o seu singular e único caminho de salvação.

Nem todos, porém, seguem a sua estrela e assim se perdem no labirinto da Babilónia.

Uns, porque ocupados – e enredados – que estão nos negócios terrenos nem sequer levantam os olhos ao Alto ou, se o fazem, distraem-se com a miríade de estrelas que brilham no céu, mas não descobrem a sua.

Outros, porque embora atraídos por um certo cintilar que os fascina e comove (a sua estrela de Revelação!) não persistem no esforço de desvendar o mistério para que a estrela aponta.

Outros, ainda, porque não ousam juntar-se aos peregrinos que se atrevem a percorrer os trilhos do amor, da justiça e da paz, o horizonte comum de salvação para onde apontam todas as estrelas da Revelação.

A recente celebração da festa da Epifania coloca-nos perante o desafio de aprender a reconhecer a nossa estrela de Revelação, certamente olhando para o céu, mas sobretudo escutando e respondendo aos acontecimentos que preenchem o nosso quotidiano e o nosso mundo e que nos desassossegam, nos indignam, nos maravilham (José Augusto Mourão, in Quem vigia o vento não semeia, 2011).

28 maio 2011

A Caridade dá que fazer - Redescobrindo a actualidade das “Obras de Misericórdia”
Luciano Manicardi

Trata-se de uma releitura das “obras de misericórdia” feita com o olhar do biblista e monge do Mosteiro de Bose: um olhar que integra o conhecimento teológico com os contributos científicos da antropologia e da psicologia; um olhar atento à cultura contemporânea e aos desafios da civilização ocidental nestas primeiras décadas do século XXI.

Do prefácio que escrevi para este livro, cito três parágrafos que espero possam avivar o desejo de não passar ao lado de mais esta obra da colecção “Poéticas do viver crente”, em boa hora iniciada pelas Paulinas Editora.

Falar das “obras de misericórdia”, como se propõe o Autor deste livro, é procurar tornar visível e palpável as diferentes declinações da caridade, vertendo esse dinamismo interior, que é o amor, em gestos, atitudes e obras, de resposta às situações de sofrimento humano, de modo a que fique claro que a caridade não é um mero sentimento, uma aspiração vaga e etérea, uma opção facultativa, mas antes um modo de os seres humanos habitarem o mundo e de humanizarem as relações entre os seus habitantes e os seus projectos de organização da economia e da sociedade.


A reflexão de Luciano Manicardi assenta no pressuposto de que a caridade tem uma dimensão histórica: é no aqui e agora que ganha concretização, assume corpo de resposta aos desafios próprios do tempo e do lugar, indo ao encontro das pessoas e das situações em que vivem. Por isso, o Autor recorda que a Igreja tem a responsabilidade histórica da narração da caridade.


(…) é particularmente interessante a ideia de que, nestes dias maus, como qualifica o tempo presente, é importante lembrar, antes de mais, que existe uma caridade da razão: é necessário que a razão política seja enxertada na caridade e na justiça, saiba que é habitada pela caridade, ou seja, pelo sentido do sofrimento do outro, do sentido do seu carácter único e irrepetível, do sentido do humano presente em cada homem antes de cada uma das suas definições.

23 fevereiro 2011

Viver a Esperança, «embora seja noite»

Relembro um sugestivo jogo de palavras, contido num ditado latino: Spiro, spero. A tradução é fácil: Respiro, espero. Esta associação de vocábulos, mais do que uma aproximação de sonoridades, conota a ideia da esperança como um respirar, o que para nós fará evocar aquele movimento criador do Espírito que converteu o inicial caos em cosmos (Génesis 1, 1-2). De facto, o movimento inicial do Espírito pairando sobre as águas é visto pela concepção bíblica como o suspiro da criação a querer libertar-se do nada.

Li algures que em hebraico o conteúdo semântico da palavra para designar a realidade da «esperança» está associado ao das vias respiratórias, órgão do corpo que assegura a passagem do ar, fonte de vida, e da água que mata a sede. A partir deste alcance etimológico, poderemos estender o conceito de esperança não apenas à ideia da respiração vital mas também à necessidade imperiosa de vencer um mal-estar, semelhante ao do sedento que, ao sentir o incómodo da secura na garganta, anseia ardentemente pela fonte. A esperança poderá, assim, ser entendida como uma energia cultivada por aquele que, diante de situações dolorosas, em vez de se enrodilhar nelas, sente-se acicatado por uma «febre de Além», (expressão de Fernando Pessoa num dos poemas de Mensagem) que o leva a acreditar que tudo pode ser diferente. Será a irreprimível ânsia de quem espera com paixão um mundo onde «Deus enxugará todas as lágrimas dos olhos e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor, porque o mundo velho já desapareceu» (Ap. 21, 4). Sem a nossa abertura para essa fonte de plenitude, dificilmente nos deixaremos envolver pela ardente utopia de um mundo novo.

Essa utopia converge com as genuínas aspirações da humanidade, mas há elementos da esperança cristã que lhe dão uma identidade própria: o facto de ter o seu alicerce fundamental no acontecimento da Ressurreição, o que provoca um certo grau de estranheza naqueles que não fazem tal aposta. O cristão sabe que as esperanças da humanidade nunca conseguirão construir o patamar entrevisto pela visão do Apocalipse, atrás referida. Iluminados por esse futuro, situado além daquilo que o homem histórico pode atingir, sempre teremos de nos opor aos ídolos do nosso mundo (sem nunca esquecer que esse «mundo» é parte integrante de cada um de nós), ajudando a construir propostas contra a corrente dominante, pois as ideias do maior número não são necessariamente as verdadeiras: A verdade, às vezes, é uma voz que clama no deserto. Esta «ousadia» não decorre de uma mania de vanguardismo mas de um acto de fé: é preciso acreditar no amor que não existe, para que ele venha a existir.

A esperança cristã terá de propor ao mundo um horizonte que ultrapasse aquilo que se vem designando, segundo a formulação de Max Weber, de «politeísimo de valores». É este horizonte que nos incita a ter uma reserva crítica em relação às aspirações deste mundo. A esta luz, teremos de nos interrogar se não temos que rever certos estilos de vida e modos de consumo, que pouco ou nada terão a ver com a construção de uma sociedade melhor, ou se, face às dificuldades da hora presente, não estaremos a cair na tentação da fuga para fora deste mundo. Para usar uma fórmula conhecida, a esperança não consiste em mudar de mundo, mas em mudar o mundo, mais concretamente em mudar a nossa relação com o mundo. Os critérios que norteiam essa «mudança» de perspectiva terão de inspirar-se na herança que Cristo nos deixou.

Depois ter sublinhado, através da narrativa dos reis Magos (Mt 2, 1-12), que a «Manifestação» do Messias fora alargada ao mundo pagão, Mateus coloca o início do ministério de Cristo em Cafarnaum, cidade situada num ponto de passagem usado pelos habitantes de «além Jordão» ( Mt 4, 12 – 17. 23-25). É na «Galileia dos gentios», espaço de encontro de várias culturas, que Jesus começa a proclamar que o Reino de Deus está no meio de nós. Lucas coloca este início da sua vida pública, imediatamente antes do famoso episódio da ida de Jesus à sinagoga de Nazaré, onde proclamou estar a cumprir-se a profecia de Isaías, referida a uma salvação messiânica associada a libertações historicamente verificáveis (Lc 4,14 -22.31- 41). A salvação anunciada por Jesus parte do seu encontro com os feridos da vida, pois ele, em vez de observar a humanidade à distância, tocou-a até ao cerne das suas feridas e deixou-se tocar por ela. Quando Cristo, por exemplo, tocou um leproso para o curar, tornou-se impuro diante dos escribas e fariseus. «Sujou-se» para purificar (Mc 3, 7-12. Cfr. Fil 2, 6-8, Gal 4, 4-5). Como se vê, os contornos da sua incarnação nada têm de fuga do mundo.

Cafarnaum é uma imagem do que deve ser a maneira de a Igreja estar no mundo: mergulhada na «massa» da humanidade. João Paulo II, num documento que teve pouca divulgação entre nós, insiste na urgência desta incarnação na realidade: «Este é seguramente um dever que interpela os cristãos: exercer sobre o tecido social uma influência que leve a transformar, não só as mentalidades, mas também as próprias estruturas da sociedade, de modo a que aí se espelhem melhor os desígnios de Deus acerca da família humana. Por isso mesmo, invoquei para os leigos uma formação completa que os ajude a levar uma vida plenamente coerente. A Fé, a Esperança e a Caridade não podem deixar de orientar o comportamento do autêntico discípulo de Cristo, em toda a sua actividade, situação e responsabilidade. (…) Os cristãos devem ser formados para viver as implicações sociais do Evangelho, de tal modo que o seu testemunho se torne um desafio profético perante aquilo que lese o verdadeiro bem dos homens e mulheres de África ou de qualquer outro continente (Ecclesia in Africa, 54).

É, pois, no coração deste mundo que a «energia» de Deus deseja fermentar, como se reza no Pai-Nosso: «que a Tua vontade seja feita na terra como no céu». Este reenvio para o mundo é um acréscimo de estímulo, em ordem ao empenho por uma sociedade mais justa e fraterna, sem termos medo do risco de errar, pois mais vale o erro com sinceridade do que a verdade sem caridade. É com os outros homens e mulheres que os cristãos devem contribuir para se ir elaborando pacientemente propostas que possam conduzir à construção de uma sociedade melhor.

Nas tentativas de articular a esperança cristã com o compromisso no mundo, três perigos são possíveis: o de absolutizar uma esperança política; o de estabelecer uma rotura total entre os reinos da Terra e o reino de Deus; o do conformismo, não ousando sair a terreiro com propostas audaciosas. A nossa dificuldade consistirá em tactear caminhos, procurando evitar estes três escolhos.

Autor: Manuel António Ribeiro. Porto. 2011
Créditos de Imagem: La Femme à l' Éventail - Modigliani