28 março 2014
Religião e Espiritualidade
08 março 2014
Sem separar a linha da terra e do céu
(...)
9. Ver não é rever nem adivinhar contornos, formas de habitar. É preciso manter atenção ao tempo, não quebrar a linha inseparável entre o céu e aterra. O confronto adaptativo não salva porque não arrisca nada. Não era apenas no tempo de Granada que havia homens “dormidos e desalmados” a precisar daquele que baixou do céu á terra vestido da carne humana. Peçamos aquilo que Romano Melódio pediu: Vós que tendes sede vinde a mim e bebei. Orvalhe este coração humilhado/ que o caminho errante dividiu/ e consumiu de fome e sede/fome não de alimento, e sede/ não de bebida/ mas de escutar a palavra do Espírito/ assim ele geme baixinho esperando/ que o julgues/ tu que apareceste e tudo iluminaste.
(José Augusto Mourão: O rosto e a sua sombra, in Quem vigia o vento não semeia, p. 354-355)
16 agosto 2013
Em Tempo de Férias
Em tempo de férias, cabe lembrar estas palavras de Bernard de Clairvaux dirigidas ao Papa Eugénio III (século XII) que, a meu ver, continuam a ter grande actualidade no nosso tempo, confrontados/as, que estamos, com muitas solicitações, ruídos variados, incertezas múltiplas.
O convite ao centramento no essencial do nosso ser mais profundo, como condição para uma realização humana feliz e autêntica, merece acolhimento e resposta.
Partilho com os leitores e leitoras o belo texto de Bernardo de Clairvaux. que encontrei no Bulletin de la Fraternité Spirituelle des Veilleurs, Julho 2013
Reviens à toi-même
18 julho 2013
José Dias da Silva - um Profeta do nossoTempo
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| José Dias |
28 maio 2013
OS 10 MANDAMENTOS DA SERENIDADE
2. Hoje terei o máximo cuidado com o meu modo de tratar os outros, sendo delicado nas minhas maneiras, sem criticar ninguém; não pretenderei melhorar ou disciplinar ninguém senão a mim.
3. Hoje sentir-me-ei feliz com a certeza de ter sido criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.
4. Hoje adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem todas aos meus desejos.
5. Hoje dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando-me que assim como é preciso comer para sustentar o meu corpo, assim também a leitura é necessária para alimentar a vida da minha alma.
6. Hoje praticarei uma boa acção sem a contar a ninguém.
7. Hoje farei uma coisa de que não gosto e se for ofendido nos meus sentimentos procurarei que ninguém o saiba.
8. Hoje farei um programa bem completo do meu dia. Talvez não o execute perfeitamente, mas em todo o caso, vou fazê-lo. E me guardarei bem de duas calamidades: a pressa e a indecisão.
9. Hoje permanecerei bem firme na fé de que a Divina Providência se ocupa de mim, mesmo se existisse só eu no mundo – ainda que as circunstâncias manifestem o contrário.
10. Hoje não terei medo de nada. Em particular, não terei medo de gozar do que é belo e não terei medo de crer na bondade.Papa João XXIII
30 abril 2013
A Última Beguina
– Aprender com a História
O Movimento das Beguinas é um exemplo surpreendente da capacidade inventiva das mulheres e inscreve-se no longo percurso de emancipação das mulheres e da sua presença na Igreja e na sociedade. Na sua matriz cultural e espiritual, estão presentes muitos dos traços desse longo processo emancipatório e de procura de um lugar genuíno na sociedade e na Igreja, por parte das mulheres.
As beguinas caracterizaram-se pelas suas opções de vida. Romperam a barreira da escolha que, na época, lhe era proposta (ou esposas ou monjas), eram celibatárias, mas também viúvas e, em alguns casos, mulheres casadas que, vivendo nas suas casas de família, participavam da espiritualidade e das missões comuns das comunidades das beguinas. Viviam em habitações próprias, sozinhas ou com algumas companheiras, mas mantendo grande autonomia; procuravam viver do seu trabalho e optavam por um estilo de vida simples e pobre; prestavam serviços caritativos às pessoas da vizinhança que a elas recorriam, nomeadamente cuidados de saúde, de enfermagem ou de educação das crianças. Quase todas praticavam alguma arte, no domínio da pintura ou da música. Algumas distinguiram-se na poesia mística escrita em língua vulgar, contrariando o uso do latim
O Movimento foi particularmente relevante nos últimos séculos da Idade Média, sobretudo na Flandres, mas espalhou-se a outras regiões do centro da Europa.
Certamente sem o fulgor que alcançaram na alta idade Média, as comunidades das beguines mantiveram-se por largos séculos e ficam na história como testemunho do valor de comunidades de mulheres espirituais leigas, dedicadas a Deus, mas independentes da hierarquia eclesiástica, autónomas na obtenção do seu sustento e na organização da sua vida pessoal, atentas ao próximo e às suas necessidades, informadas e cultas.
26 fevereiro 2013
Leituras Plurais sobre as Bem-aventuranças
24 janeiro 2013
Da Separação à Alegria da Comunhão
No termo de mais uma semana de oração das igrejas cristãs pela unidade, vem a propósito recordar este poema de Carlos Falcão:
A separação
As palavras já vão longe, mas eu levo o caminho.
“Eis o que não se entende”, diz aquele que observa
Do lado mais parado. Se paro não entendo.
Mas não há separação, as palavras abrem campos
Para o mesmo avanço, batem-nos, assaltam-nos
E, quando lá chegam, aí é onde eu estou.
Não estou, elas vão longe, detêm-me o caminho
São as batedoras em respiração. E isso não se entende.
Aquele que observa dá voltas noutro braço, lê
E não persegue, vê, não irradia, tem um saber parado
Quero ser claro: tu és o separado e o poema sabe
Cavar o teu lugar, retirar-te ao dom, banir-te da magia.
Escrito, certamente, em contexto diferente para o qual o convoco, o poema escolhido fica a iluminar os dois pólos que importa combinar para ultrapassar a separação: a palavra que se adianta e ilumina o caminho, a oração comum que atrai a dádiva da comunhão e cava o lugar da alegria.
18 janeiro 2013
Para uma Liturgia do Hoje
Celebrar é rememorar
Mas também fazer acontecer
Como se o hoje fosse o dia
Em que o Sopro nos visita
E a Palavra se apresenta
qual gramática segura da nossa humanidade.
Hoje ninguém poderá dizer:
Que se atemoriza com um rosto de criança
Que permanece indiferente ao sorriso de um menino
Que ficará insensível a um grito de carência
De alguém que está por perto.
Voltar as costas ao próximo é palavra proibida.
É esta a liturgia do hoje.
Ponte para a escuta do mistério
Para o encontro que vai muito além do visível
Convite à permanente transumância
Das pastagens conhecidas e gastas
Ao imprevisível dos horizontes largos do futuro.
É esta a liturgia do hoje.
Com a esperança nos prados claros, verdejantes e limpos
Que nos esperam em chave de promessa.
08 dezembro 2012
Viver uma fé adulta
09 agosto 2012
Amor eterno
Quem és tu,
Doce luz que me preenche
e ilumina a obscuridade do meu coração?
Conduzes-me como a mão de uma mãe
E, se me soltasses,
não saberia nem dar mais um passo.
És o espaço que envolve todo meu ser e o encerra em si.
Se fosse abandonado por ti,
cairia no abismo do nada,
de onde tu o elevas ao Ser.
Tu, mais próximo de mim que eu mesmo
e mais íntimo que minha intimidade.
E, sem dúvida,
permaneces inalcançável e incompreensível,
E que faz brotar todo nome:
Espírito Santo — Amor eterno!
(Edith Stein)
26 julho 2012
Hildegard de Bingen - Doutora da Igreja
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| Hildegard de Bingen |
[ a entrevista de Victoria Cirlot]
28 março 2012
Em que se concretiza a minha fé?
Partilho-as, hoje, com quem visita este blogue, lembrando que, a pouco tempo da celebração da Páscoa, devemos não passar ao lado de questões fundamentais da nossa existência humana e cristã, devemos saber acolher interrogações como esta: Em que se concretiza a minha fé?
10 março 2012
Os Cristãos e o Mundo
24 fevereiro 2012
Prestar atenção: a responsabilidade pelo irmão
09 fevereiro 2012
Beleza – uma grande necessidade do ser humano
03 fevereiro 2012
Vivei sempre alegres (I Ts 5, 16)
11 janeiro 2012
A Estrela da Revelação
28 maio 2011
A Caridade dá que fazer - Redescobrindo a actualidade das “Obras de Misericórdia”
Luciano Manicardi
Do prefácio que escrevi para este livro, cito três parágrafos que espero possam avivar o desejo de não passar ao lado de mais esta obra da colecção “Poéticas do viver crente”, em boa hora iniciada pelas Paulinas Editora.
A reflexão de Luciano Manicardi assenta no pressuposto de que a caridade tem uma dimensão histórica: é no aqui e agora que ganha concretização, assume corpo de resposta aos desafios próprios do tempo e do lugar, indo ao encontro das pessoas e das situações em que vivem. Por isso, o Autor recorda que a Igreja tem a responsabilidade histórica da narração da caridade.
(…) é particularmente interessante a ideia de que, nestes dias maus, como qualifica o tempo presente, é importante lembrar, antes de mais, que existe uma caridade da razão: é necessário que a razão política seja enxertada na caridade e na justiça, saiba que é habitada pela caridade, ou seja, pelo sentido do sofrimento do outro, do sentido do seu carácter único e irrepetível, do sentido do humano presente em cada homem antes de cada uma das suas definições.
23 fevereiro 2011
Viver a Esperança, «embora seja noite»
Relembro um sugestivo jogo de palavras, contido num ditado latino: Spiro, spero. A tradução é fácil: Respiro, espero. Esta associação de vocábulos, mais do que uma aproximação de sonoridades, conota a ideia da esperança como um respirar, o que para nós fará evocar aquele movimento criador do Espírito que converteu o inicial caos em cosmos (Génesis 1, 1-2). De facto, o movimento inicial do Espírito pairando sobre as águas é visto pela concepção bíblica como o suspiro da criação a querer libertar-se do nada. 
Li algures que em hebraico o conteúdo semântico da palavra para designar a realidade da «esperança» está associado ao das vias respiratórias, órgão do corpo que assegura a passagem do ar, fonte de vida, e da água que mata a sede. A partir deste alcance etimológico, poderemos estender o conceito de esperança não apenas à ideia da respiração vital mas também à necessidade imperiosa de vencer um mal-estar, semelhante ao do sedento que, ao sentir o incómodo da secura na garganta, anseia ardentemente pela fonte. A esperança poderá, assim, ser entendida como uma energia cultivada por aquele que, diante de situações dolorosas, em vez de se enrodilhar nelas, sente-se acicatado por uma «febre de Além», (expressão de Fernando Pessoa num dos poemas de Mensagem) que o leva a acreditar que tudo pode ser diferente. Será a irreprimível ânsia de quem espera com paixão um mundo onde «Deus enxugará todas as lágrimas dos olhos e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor, porque o mundo velho já desapareceu» (Ap. 21, 4). Sem a nossa abertura para essa fonte de plenitude, dificilmente nos deixaremos envolver pela ardente utopia de um mundo novo.
Essa utopia converge com as genuínas aspirações da humanidade, mas há elementos da esperança cristã que lhe dão uma identidade própria: o facto de ter o seu alicerce fundamental no acontecimento da Ressurreição, o que provoca um certo grau de estranheza naqueles que não fazem tal aposta. O cristão sabe que as esperanças da humanidade nunca conseguirão construir o patamar entrevisto pela visão do Apocalipse, atrás referida. Iluminados por esse futuro, situado além daquilo que o homem histórico pode atingir, sempre teremos de nos opor aos ídolos do nosso mundo (sem nunca esquecer que esse «mundo» é parte integrante de cada um de nós), ajudando a construir propostas contra a corrente dominante, pois as ideias do maior número não são necessariamente as verdadeiras: A verdade, às vezes, é uma voz que clama no deserto. Esta «ousadia» não decorre de uma mania de vanguardismo mas de um acto de fé: é preciso acreditar no amor que não existe, para que ele venha a existir.
A esperança cristã terá de propor ao mundo um horizonte que ultrapasse aquilo que se vem designando, segundo a formulação de Max Weber, de «politeísimo de valores». É este horizonte que nos incita a ter uma reserva crítica em relação às aspirações deste mundo. A esta luz, teremos de nos interrogar se não temos que rever certos estilos de vida e modos de consumo, que pouco ou nada terão a ver com a construção de uma sociedade melhor, ou se, face às dificuldades da hora presente, não estaremos a cair na tentação da fuga para fora deste mundo. Para usar uma fórmula conhecida, a esperança não consiste em mudar de mundo, mas em mudar o mundo, mais concretamente em mudar a nossa relação com o mundo. Os critérios que norteiam essa «mudança» de perspectiva terão de inspirar-se na herança que Cristo nos deixou.
Depois ter sublinhado, através da narrativa dos reis Magos (Mt 2, 1-12), que a «Manifestação» do Messias fora alargada ao mundo pagão, Mateus coloca o início do ministério de Cristo em Cafarnaum, cidade situada num ponto de passagem usado pelos habitantes de «além Jordão» ( Mt 4, 12 – 17. 23-25). É na «Galileia dos gentios», espaço de encontro de várias culturas, que Jesus começa a proclamar que o Reino de Deus está no meio de nós. Lucas coloca este início da sua vida pública, imediatamente antes do famoso episódio da ida de Jesus à sinagoga de Nazaré, onde proclamou estar a cumprir-se a profecia de Isaías, referida a uma salvação messiânica associada a libertações historicamente verificáveis (Lc 4,14 -22.31- 41). A salvação anunciada por Jesus parte do seu encontro com os feridos da vida, pois ele, em vez de observar a humanidade à distância, tocou-a até ao cerne das suas feridas e deixou-se tocar por ela. Quando Cristo, por exemplo, tocou um leproso para o curar, tornou-se impuro diante dos escribas e fariseus. «Sujou-se» para purificar (Mc 3, 7-12. Cfr. Fil 2, 6-8, Gal 4, 4-5). Como se vê, os contornos da sua incarnação nada têm de fuga do mundo.
Cafarnaum é uma imagem do que deve ser a maneira de a Igreja estar no mundo: mergulhada na «massa» da humanidade. João Paulo II, num documento que teve pouca divulgação entre nós, insiste na urgência desta incarnação na realidade: «Este é seguramente um dever que interpela os cristãos: exercer sobre o tecido social uma influência que leve a transformar, não só as mentalidades, mas também as próprias estruturas da sociedade, de modo a que aí se espelhem melhor os desígnios de Deus acerca da família humana. Por isso mesmo, invoquei para os leigos uma formação completa que os ajude a levar uma vida plenamente coerente. A Fé, a Esperança e a Caridade não podem deixar de orientar o comportamento do autêntico discípulo de Cristo, em toda a sua actividade, situação e responsabilidade. (…) Os cristãos devem ser formados para viver as implicações sociais do Evangelho, de tal modo que o seu testemunho se torne um desafio profético perante aquilo que lese o verdadeiro bem dos homens e mulheres de África ou de qualquer outro continente (Ecclesia in Africa, 54).
É, pois, no coração deste mundo que a «energia» de Deus deseja fermentar, como se reza no Pai-Nosso: «que a Tua vontade seja feita na terra como no céu». Este reenvio para o mundo é um acréscimo de estímulo, em ordem ao empenho por uma sociedade mais justa e fraterna, sem termos medo do risco de errar, pois mais vale o erro com sinceridade do que a verdade sem caridade. É com os outros homens e mulheres que os cristãos devem contribuir para se ir elaborando pacientemente propostas que possam conduzir à construção de uma sociedade melhor.
Nas tentativas de articular a esperança cristã com o compromisso no mundo, três perigos são possíveis: o de absolutizar uma esperança política; o de estabelecer uma rotura total entre os reinos da Terra e o reino de Deus; o do conformismo, não ousando sair a terreiro com propostas audaciosas. A nossa dificuldade consistirá em tactear caminhos, procurando evitar estes três escolhos.



