28 março 2014

Religião e Espiritualidade


Ainda há muita gente que confunde religião com espiritualidade, mas trata-se de duas realidades diferentes.

Num pequeno texto, de circulação interna, Fernando Belo, Professor da Faculdade de Letras de Lisboa, vem chamar a atenção para a necessidade desta distinção. Esta clarificação é fundamental no caso do cristianismo.

Como diz Fernando Belo: No evangelho, a distinção é clara desde o início: o apelo à conversão com o baptismo como ritual de ruptura, tendo sido o mundo político-religioso quem condenou os dois que apelavam à conversão, João Baptista e Jesus. Este opôs Deus não apenas ao Dinheiro (Mateus 6,24) e ao poder político ocupante de César (idem 22,21) mas também ao Deus dos mortos (“ele não é um Deus de mortos mas de vivos”, Marcos 12,27), isto é, ao poder religioso do Templo, como mostra uma palavra dirigida a alguém que queria seguir o mestre mas primeiro devia enterrar o seu pai: “deixa os mortos enterrarem os seus mortos” (Lucas 9,60); o Deus dos mortos é o dos antepassados mortos e enterrados, donde deriva a religião. Durante alguns séculos, o cristianismo foi um movimento espiritual no meio de outros no império romano, foi mesmo perigoso ser cristão em certas épocas, mas depois os Césares escolheram-no como religião oficial em vez da ancestral. Em poucas gerações no Ocidente, o cristianismo tornou-se religião holística ancestral, o baptismo tornado rito de bebés, sinal evidente da mutação. Mas há outro sinal muito mais óbvio: a partir daí, a religião não deixou de parir nas suas margens movimentos espirituais que se referiam à aposta evangélica adulta contra os senhores deste mundo.

O Papa Francisco com a sua palavra profética e testemunho de vida em gestos simples mas cheios de simbologia (por exemplo, a sua opção de não habitar no Palácio do Vaticano!) é um apelo eloquente a que temos de cuidar da espiritualidade evangélica e, através da vida pessoal e das comunidades cristãs, torná-la presente no mundo em que vivemos, nas famílias como nas empresas, na vida política como nas instâncias de regulação financeira, uma espiritualidade que permeie a cultura e inspire e motive as opções do quotidiano.

Este modo de viver a fé cristã, hoje, será uma ponte necessária para saber acolher outras espiritualidades e com elas cooperar na concretização de um mundo mais justo, solidário e sustentável.

Concluo com o final do texto que inspirou esta reflexão:

Faz parte de ser espiritual hoje que, crentes ou não, demos as mãos – livres e solidárias – contra a dominação da alta finança sobre o medíocre poder político e os médias ao seu serviço.

2 comentários:

  1. Obrigada por esta chamada de atenção tão assertiva.

    Ao jeito de exemplo do que é uma Espiritualidade em Acção para o nosso tempo deixo o exemplo desta Amiga de Betânia...

    AQUI

    e
    AQUI



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  2. Mas que bela inspiração a tua: fazer link para o site da Emma Ocaña. E que descoberta... A Emma é de facto exemplo de uma espiritualidade encarnada, atenta e comprometida com os sinais dos tempos, do lado dos injustiçados. Muito obrigada!

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Maria do Céu