15 setembro 2009

Abraão Salva Lot e é abençoado pelo rei de Salém - Génesis, capítulo 14

No site da Fundação Betânia foi publicada a nova série de estudos sobre o Génesis, no âmbito do Projecto Ler a Bíblia, coordenado por Nicoletta Crosti.

Estes estudos podem ser comentados no Ouvido do Vento.

As novas descobertas sobre o oriente antigo demonstraram que os relatos deste capítulo fundamentaram-se numa tradição antiquíssima, que demarca este capítulo do resto das tradições patriarcais. Está repleto de elementos fantásticos como a vitória dos 318 homens sobre o exército coligado dos reis do oriente. A localidade de Dan não existia no tempo pré-israelítico. Não se chegou a identificar nem os nomes das cidades da Cananeia nem os reis que são mencionados. Parece que mais do que castigar as pequenas cidades da Cananeia, os reis orientais pretendiam abrir uma estrada de acesso ao mar Vermelho e ao Egipto.

vv. 14-16 Quando Abraão soube que os seus parentes tinham sido feitos prisioneiros … Abraão entra em guerra apenas para salvar o seu sobrinho Lot, e não para participar na guerra contra os reis. Num movimento astucioso Abraão e os seus três aliados atingem a retaguarda do exército, trazem o espólio e recuperam Lot, a sua família e os seus bens. Abraão tornou-se vencedor porque, apesar do número exíguo de soldados, Deus estava do seu lado (veja-se David e Golias em I Sam 17,32-51).

(...)

A abertura de Abraão à figura de Melquisedec, que exercia um culto extra-israelítico cananeu, vem dado como exemplo da abertura à fé dos outros.

(Is 66, 18b-21; Ml 1,11).

.

vv. 22-24 Abraão diz ao rei de Sodoma… nada tomarei daquilo que é teu… Abraão renuncia ao seu direito de reter o património, enquanto vencedor, e mostra-se mais uma vez generoso, não apegado aos bens.

- Nicoletta Crosti,

Abraão é generoso com Lot Deus recompensa-o

- Génesis, capítulo 14

[ Versão integral ]

14 setembro 2009

Escuta, vazio e silêncio

Relacinado com o alcance da escuta, não resisto a partilhar um texto de Raúl Solnado que Frei Bento recorda no seu artigo de ontem:
Numa das vezes que fui à Expo, em Lisboa, descobri, estranhamente, uma pequena sala completamente despojada, apenas com meia dúzia de bancos corridos. Nada mais tinha. Não existia ali qualquer sinal religioso e por essa razão pensei que aquele espaço se tratava de um templo grandioso.
“Quase como um espanto, senti uma sensação que nunca sentira antes e, de repente, uma vontade de rezar não sei a quem ou a quê. Sentei-me num daqueles bancos, fechei os olhos, apertei as mãos, entrelacei os dedos e comecei a sentir uma emoção rara, um silêncio absoluto. Tudo o que pensava só poderia ser trazido por um Deus que ali deveria viver e que me envolvia no meu corpo amolecido. O meu pensamento aquietou-se naquele pasmo deslumbrante, naquela serenidade, naquela paz.
“Quando os meus olhos se abriram, aquele Deus tinha desaparecido em qualquer canto que só Ele conhece, um canto que nunca ninguém conheceu e quando saí daquela porta, corri para a beira do rio para dar um grito de gratidão à minha alma, e sorri para o Universo.
”Aquela vírgula de tempo foi o mais belo minuto de silêncio que iluminou a minha vida e fez com que eu me reencontrasse. Resta-me a esperança de que, num tempo que seja breve, me volte a acontecer. Que esse meu Deus assim qu
eira” (Raul Solnado, Um Vazio no Tempo,

01 setembro 2009

Escutar para Ver

Vivemos imersos numa cultura que olha, que ouve, que fala, que valoriza a muita informação e o conhecimento superficial da última hora.

(...)

Quando falo de escuta, quero referir-me, em primeiro lugar, à atitude que preside ao encontro entre duas ou mais pessoas e à conversa que entre elas se estabelece.

Tem-se vindo a perder a capacidade corrente de escuta no seio dos pequenos grupos e das famílias, a tal ponto que, hoje, em múltiplas circunstâncias, se torna necessário recorrer a profissionais de “escuta” para compensar um tal défice.

Escutar não é ouvir e muitas vezes o que verificamos à nossa volta é que se multiplicam as palavras num imenso frenesim de as fazer ouvir, mas sem cuidar de que aquele ou aquela para quem se fala tenha oportunidade de reagir, de expor as suas próprias ideias, de soltar os seus sentimentos, de ter tempo para interagir e assimilar criticamente o que é dito.

(...)

Lembrar a importância da escuta adquire particular acuidade no período eleitoral em que nos encontramos. Como seriam muito mais fecundos os debates político-partidários ou mesmo as meras conversas e comentários acerca dos diferentes projectos políticos, se todos cuidássemos de praticar uma escuta atenta, livre de preconceitos e de falsas verdades e nos orientássemos por critérios de bem comum.

(...)

[ Texto integral ]

Imagem: Giant Ear and Man Listening - James Endicott, 2008