24 setembro 2008

As razões profundas da insegurança

No último verão, aumentaram os indicadores da criminalidade violenta no nosso País. o que veio pôr a descoberto fenómenos sociais que não podem ser ignorados.
De entre as análises feitas, destaco o documento produzido pelo Observatório sobre a Produção, Comércio e Proliferação de armas ligeiras dado a conhecer em 19 Setembro.
Desse documento respigo os excerptos seguintes
(...) os ensinamentos deste verão relativos à luta contra a violência e a insegurança a que ela conduz não se cingem a reflexões sobre a actuação das forças de segurança ou a uma exigência de melhor organização dos sectores do Estado com elas relacionados, a partir dos meios já existentes, para lhes fazer face.
Tal como o Observatório tem vindo a chamar a atenção nas suas duas Audições “Por uma sociedade segura e livre de armas” e “Dois anos depois: onde estão as armas?”, realizadas em 2005-2006 e em Fevereiro deste ano, a violência e a insegurança têm razões mais profundas e não podem nem devem ser combatidas no domínio estreito das forças de segurança, por maior latitude que lhes tenha sido conferida ao seu acompanhamento e enquadramento.
A faceta social de todo este problema não pode ser retirada do campo da análise e da intervenção.
O documento está disponível na íntegra no site do Observatório e no site da CNJP.

15 setembro 2008

Vós sereis para mim homens santos
- Êxodo 22, 27-30; 23,1-19

No site da Fundação Betânia foi publicado mais um estudo do Livro do Êxodo, no âmbito do Projecto Ler a Bíblia, coordenado por Nicoletta Crosti.

Estes estudos podem ser comentados no Ouvido do Vento.

(...)
O autor bíblico continua a interligar os deveres para com Deus com os deveres para com o próximo, porque estas duas responsabilidades não são disjuntas. Por isso, o autor insere aqui o preceito do correcto exercício da justiça (vv. 1-3 e 6-8), apresentada no âmbito forense, mas patente numa dimensão mais vasta. A instituição dos juízes foi a primeira instituição que os israelitas tiveram ainda enquanto peregrinos no deserto (Ex. 18,13-27; Dt 1,9-18). No Dt 16,18-20, é dado a Moisés o mandamento explícito para constituir juízes em toda a cidade. De facto, a ordem subentendida é esta:

A justiça e só a justiça seguirás, para que vivas. (Dt 16,20)

O autor recorda que facilmente se pode perverter a justiça, caindo na armadilha da corrupção (v.8), do favoritismo pessoal, e na errada procura da verdade (v.7). Veja-se o comentário a Ex. 20, 16. O juízo humano deve alinhar-se com o de Deus, que é sempre um juízo imparcial (Dt 1,17; 10,16-18). Os direitos dos pobres têm que ser protegidos (v.6). Mas, mesmo a compaixão não se deve exercer ao arrepio da justiça (v.7).

v. 2. Não seguirás a maioria para fazer o mal.

O juízo deve ser independente das pressões da praça. Não procederá assim Pilatos no processo de Jesus (Lc 23, 13-25; Mc 15, 6-15; Mt 27,19-26). A verdade e a justiça podem não estar do lado da maioria. É esta uma advertência importante para as democracias que se baseiam nas decisões da maioria. Nesta passagem quer-se sublinhar a importância de um critério ponderado autonomamente e livre dos factores inquinantes do juízo.

Inseridos que estão os deveres da justiça, segue-se a recomendação da solidariedade e da prestação de ajuda mútua, até quando se trata de um inimigo (vv.4-5 e Pr 25,21.22; Dt 22,1-4). Ajudar o inimigo equivale a ter benevolência ao confrontá-lo. Jesus retomará este conceito, reagindo contra os moralistas do seu tempo, que não seguiam a palavra de Deus (Mt 5,43-48).

- Nicoletta Crosti,
Vós sereis para mim homens santos
- Êxodo 22, 27-30; 23,1-19

[ Versão integral ]

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01 setembro 2008

Viver perto do Ser

(...) " O ser humano da civilização ocidental confronta-se com sinais evidentes de uma crise que o amedronta, mas, por ora, continua enredado nas múltiplas teias que a sustentam e não raro, a ampliam. É comum o sentimento de insatisfação e temor o qual vai a par de uma convicção de impotência relativamente ao paradigma sociopolítico e à cultura dominantes. Uma atitude resignada e paralisante.
Sem subestimar as resistências sistémicas que se opõem a uma indispensável mudança de rumo, urge reconhecer que começam a emergir valores, atitudes e comportamentos com incidência na produção (o que produzir, como produzir e para quem produzir), no consumo (escolhas quanto ao tipo de bens e ao modo como são produzidos, efeitos sobre o ambiente, sobriedade nas aquisições, partilha de bens duráveis, etc), investimentos (critérios éticos na aplicação das poupanças), ou quanto à iniciativa de criação de emprego em novas actividades dirigidas para a satisfação de necessidades individuais e familiares não cobertas e para a promoção do bem estar colectivo.
Se todos somos espectadores, não podemos deixar de ser também actores responsáveis por aquilo vai acontecendo e pela construção do futuro. (...)"
Imagem: O Violinista Azul - Marc Chagall, 1947 - pormenor