31 janeiro 2008

Artífices da Paz

Vivemos numa sociedade crispada. As pessoas parecem zangadas. Zangadas com os outros, com o trabalho, com o trânsito, com a política, com o funcionamento dos serviços. Em suma: zangadas com a vida. Talvez, e em primeiro lugar, zangadas consigo mesmas e transportando estes sentimentos para o ambiente em que vivem e onde se movimentam, potenciando, assim, novas razões de mal-estar…
(...)

Existem inúmeras causas objectivas que concorrem para alimentar o espírito de zanga e a violência a ela associada. É uma análise de que não me ocuparei, em pormenor, neste escrito, mas será interessante que cada eventual leitor e leitora o faça e incentive familiares e amigos a que o façam também. Quando conhecemos as causas do mal estamos em melhor posição para as prevenir e erradicar!
(...)

Não nos dispensaremos de procurar remover as raízes estruturais da violência, intervindo nas instâncias próprias e através dos meios adequados, para que prevaleça a justiça e se dê a necessária solidez à paz social. Será um combate a prosseguir com lucidez, determinação e persistência. Contudo, o passo mais imediato ao nosso alcance é, certamente, o que decorre de uma escuta sincera, profunda e consequente da palavra do Evangelho, que é também um convite: Felizes os que constroem a paz. Serão chamados filhos e filhas de Deus. (Mt 5,9).


A esta luz, concluo com um duplo desafio: Como ser artífice de paz hoje? Como aproveitar a Quaresma de 2008 para arrancar as raízes da zanga e mal dizer e cultivar um espírito de positividade, de harmonia, de conciliação e de paz? »» [Texto integral]

18 janeiro 2008

Não Roubarás - Êxodo 20, 15

“Na tradição rabínica, a explicação do oitavo mandamento passa por uma reflexão acerca do desejo humano que está na base do furto. (…)
O ladrão é aquele que vive o desejo, legítimo, de ser mais, de ser melhor, de ser também amanhã, mas confunde o objecto do seu desejo, falha o alvo, e em vez de ficar na categoria do ser, entra no domínio do ter e julga que a realização do próprio desejo passa pelo ter mais. Este erro de perspectiva é considerado muito grave e por isso o ladrão tem que retribuir duas ou mais vezes o valor daquilo que roubou, para poder assim reflectir acerca do seu erro e aprender com ele:
O desejo salva-nos, elevando-se e arrastando-nos para o nível mais alto, que é o de ser nefesh.
Então, educar as crianças significa fazê-las passar de um desejo de ter mais a um desejo de ser mais e de ser maiores.”
- Nicoletta Crosti, Não Roubarás - Êxodo 20, 15 (excertos)

15 janeiro 2008

Petites avancées

O texto do Manuel António fez-me lembrar o editorial da última Info Cotmec (Comissão para o terceiro mundo da Igreja Católica na Suiça). Intitula-se "Petites avancées" e no fundo reproduz passagens de um correio de Natal enviado por Laetitia, uma amiga africana. Escreve Laetitia: "A criminalidade e o banditismo, os bloqueios das instituições, os desvios dos bens públicos, a alta de preços dos géneros de primeira necessidade tornaram-se o nosso pão quotidiano. Parece que a crise que atravessa o nosso país não tem fim". E acrescenta o editorialista, dir-se-ia que se poderia esperar de seguida uma palavra de desânimo e um baixar de braços. Contudo, a sua correspondente acrescenta: Não se pode, porém negar que existem alguns pequenos avanços: ouve-se menos o tiroteio das armas de fogo; as pessoas circulam mais ou menos livremente em todo o país. O que não sucedia há algum tempo." E, um pouco mais adiante, acrescenta:"Num futuro próximo, o nosso país vai conhecer a paz e a prosperidade".
É esta atitude esperançosa que eu gostaria de assinalar. É que, à força de nos habituarmos a uma crítica negativa sistemática, como vem acontecendo entre nós, embotamos o olhar e já não damos conta das "petites avancées" que podem trazer alegria ao quotidiano e gerar sinergias para novos avanços no sentido de um projecto colectivo de uma sociedade mais próspera e solidária.
Conclusão: queixemo-nos menos dos nossos pequenos males, saudemos os passos positivos que vão sendo dados e empenhemo-nos mais em resolver as dificuldades do quotidiano e em construir as melhorias que estiverem ao nosso alcance.
Manuela Silva

07 janeiro 2008

A propósito da Cimeira Europa - África

Coube a Portugal organizar a II Cimeira Euro-Africana, evento que visou dar novas bases ao diálogo entre dois continentes, ainda com muitas chagas por sarar. As cimeiras anteriores não obtiveram os resultados esperados, a avaliar por indicadores do que se passa em numerosos países africanos, onde persistem a pobreza absoluta, doenças endémicas devastadoras, como acontece com o HIV, e um crescimento económico insuficiente. Parece apostar-se agora numa cooperação que tenha como actores do desenvolvimento não apenas os governos mas também as sociedades dos dois continentes.

Apesar de todas as dúvidas suscitadas, esta cimeira vale pelas esperanças que alimenta. Porque só a cooperação, envolvendo todas as nações, poderá garantir um melhor futuro para o nosso planeta, não podemos ficar indiferentes aos grandes desafios desta frente de cooperação intercontinental. Assistimos a uma globalização sem solidariedade que está a afectar negativamente os sectores mais pobres. A miséria no Terceiro Mundo é uma distorção muito mais negativa do que a simples exploração gananciosa dos seus recursos, pois, além das graves carências materiais que provoca, exclui os seus cidadãos de qualquer centro de decisão. O direito de pertença à sociedade é atingido nas suas próprias raízes, por força de uma globalização ambígua e manipulada que está a criar cidadãos sem cidadania. São povos inteiros, culturas e pessoas que se tornam «invisíveis» aos olhos dos poderes de decisão. Estes agem como se aqueles não existissem. »» [ Ler texto integral ]

01 janeiro 2008

DESEJO DE DIA NOVO

Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo
De o transformar. Este é o dia transformado
Pelo modo como apoio este dia no chão.

(…)
Daniel Faria – Para o instrumento difícil do silêncio

São palavras de desejo e de novidade as que saltam em cada começo de ano.
Palavras de desejo de transformar o mundo e de o tornar humanamente mais habitável, convivial e fraterno.
Palavras de novidade que nos devolvem, como num espelho, aquilo que somos verdadeiramente e quais os valores impressos na nossa consciência, pela qual pautamos o nosso jeito de ser e de viver.
Palavras que nos suscitam um desejo de mudança e nos convocam para alguma transformação de atitudes e comportamentos, de estilo de vida e de projecto de futuro.
Palavras que, para terem a marca da autenticidade, nos responsabilizam pelo modo como apoiamos este desejo de dia novo no chão dos nossos quotidianos, na família e no trabalho, na escola e nas múltiplas instâncias que moldam a vida colectiva.
De vários horizontes e, nomeadamente, da parte de alguns sectores cristãos, incluindo a voz do Magistério, vêm surgindo apelos no sentido de uma tomada de consciência de que a profunda mutação em curso na economia e na organização social, que hoje ocorre simultaneamente à escala mundial e no interior de cada país, não fique entregue aos automatismos do sistema económico, mas antes seja conduzida segundo critérios que salvaguardem a dignidade do ser humano, promovam valores fundamentais como a justiça, a liberdade e a equidade e bem assim defendam o equilíbrio ecológico do Planeta.
Sem subestimar a necessidade e o alcance de indispensáveis e urgentes reformas estruturais, sublinha-se que, para a sua viabilização e êxito, são precisos homens e mulheres novos, que se deixem conduzir pelo espírito de verdade e de amor, de liberdade e de comunhão na alteridade e não esmoreçam no esforço de construir o futuro enquanto projecto comum da Humanidade.
Em especial, no que se refere à paz universal, por que todos ansiamos e de que tanto se fala no começo de cada ano, há que reconhecer que aquela depende da construção de uma ordem económica justa e do desenvolvimento de uma comunidade humana universal.
A mensagem do Papa Bento XVI para o dia mundial da paz de 2008 – Família Humana, Comunidade de Paz – vai nesse sentido já que nela se sublinha, de modo particular, que é numa vida familiar sã que se experimentam algumas das componentes fundamentais da paz: a justiça e o amor entre irmãos e irmãs; a função da autoridade manifestada pelos pais; o serviço carinhoso aos membros mais débeis, porque pequenos, doentes ou idosos; a mútua ajuda nas necessidades da vida; a disponibilidade para acolher o outro e, se necessário, perdoar-lhe.
São estes valores e a sua vivência experienciada na vida familiar que, transportados para a vida em sociedade, criam os alicerces da verdadeira paz.
Que neste começo de 2008, em cada um e cada uma de nós, se avive o desejo de dia novo que transforma o mundo quando o apoiamos no chão.